Luanda, Angola - Testemunho Verde

Luanda, Angola - Testemunho Verde



Muitas tinham já atravessado gerações e presenciado momentos importantes da vida que as rodeava.
Outras eram jovens ou até crianças quando o vento soprou forte e mudou.

Em espaços abertos ou avenidas... ruas ou ainda entre muros, assistiram presas às suas raízes a tudo quanto aconteceu: “A vitória é certa!”… “Kwatcha!”… “Fênêlá oyê!”
… ao ranger dos dentes… ao bater forte do coração: alegria… temor… impotência… medo…

Souberam dos acordos e dos desacordos, dos conluios e das tramas…

Assistiram horrorizadas, mudas e manietadas nos seus postos, às matanças… ao derramar do sangue…
Dos inocentes e dos culpados.

Terão sido poucos os que tiveram tempo para dedicar-lhes um olhar…

A Mãe Natureza, no entanto, com a contribuição generosa do calor africano, na sua ronda de estações, ajudou-as a crescer, transformando-as em belas árvores que hoje se exibem por todos os cantos da cidade de Luanda: araucárias, borracheiras, casuarinas, amendoeiras, acácias rubras, jacarandás, pitta clobium, mulembas, coqueiros, palmeiras reais, cactos e tantas outras espécies de que desconheço o nome.
As buganvílias, infelizmente, já não existem em Luanda… uma praga dizimou-as há alguns anos atrás, contaram-me…
*

Umas estão em melhor estado do que outras. Faltaram cuidados, podas, encaminhamentos.

Veja-se o caso das casuarinas, mais evidentes na Ilha de Luanda: o porte que atingiram é proporcional ao desalentador aspecto que apresentam. É óbvio que jamais foram cuidadas. Os seus ramos de agulhas finas vergam-se sob o peso da poeira (quando o vento da tarde sopra, quem estiver na Ilha, poderá ver a nuvem de poeira que paira sobre Luanda… é a tal terra vermelha invadindo tudo, como referi na crónica “Feliz Dipanda!”) e da poluição. A sua cor verde-escuro há muito não é visível…

(Na Ilha, a “floresta” é uma sombra do que foi noutros tempos… Além do abandono em que se encontram as árvores, o lixo cobre o seu chão…)

As acácias rubras teimosamente florescem todos os anos, colorindo a cidade, porém os seus galhos enormes descaem desajeitadamente… a sua copa está disforme… faltou a poda adequada…, o tronco é curto e, muitas vezes, descaído… faltou, também, o encaminhamento…

As borracheiras têm um porte exuberante… Nada nem ninguém as impediu de crescer… Se a rua é estreita, os seus ramos quase tocam a parede dos prédios do lado oposto donde se encontram… A sua idade mede-se também pelo tronco e pelas suas inúmeras raízes que pendem qual estalactites vegetais…

Outras que se mostram belas e elegantes são as pitta clobium. Aprendi que aqui no Norte são conhecidas por “neias” e que, imagine-se!, uma quantidade ínfima de uma infusão das suas folhas, diariamente, previne o paludismo! As doses, porém, devem ser cuidadosamente medidas: se ingeridas em excesso poderão ser fatais!

As neias têm uma copa arredondada no topo de um tronco normalmente recto e alto e não exigem cuidados. Crescem elegantes… naturalmente… À sua sombra o povo reúne-se, conversa, discute, trabalha, faz negócios… dormita...
Vejo-as como mães amparando os seus filhos que se abrigam junto a elas.

Há já sinais de maior atenção: certas pracetas ou jardins são cuidados e mantidos limpos por empresas que têm, entre as suas actividades, a manutenção de jardins. Há zonas da cidade que são limpas diariamente... os varredores, na sua roupa alaranjada, são bem visíveis...



Projecto a visão para o futuro… para quando a cidade estiver recuperada da degradação em que se encontra agora…
Então, uma vez mais, a terra vermelha será domada sob os passeios reconstruídos, sob a relva que, apesar do sol ardente, vive e forma uma rede que a prende…

Olhos atentos voltar-se-ão para as árvores, pulmões tão necessários na grande cidade… as suas copas e o seu porte serão corrigidos…
As dores e o abandono serão esquecidos.
As árvores retribuirão com mais cor ainda.


* No dia 23 de Abril localizei duas buganvílias, uma encarnada e outra alaranjada...
Muni-me da digital para poder afirmar em letra e a cores: "As buganvílias ressuscitaram! Estão aí de novo!"
Fotografei, sim, mas é-me impossível apresentar o registo colorido: pouco depois fui assaltada e levaram a minha digital... Foi um susto grande, porém decidi que há muito pior na vida de cada um de nós... sacudi a poeira e, ainda dolorida dos esticões que sofri, apresso-me a confirmar: "As buganvílias estão aí de novo! Eu vi!"




1. Flores de uma trepadeira, R. Emílio M'Bidi, antiga Garcia de Resende, Alvalade
2. Palmeira e trepadeira, R. Emílio M'Bidi, antiga Garcia de Resende, Alvalade
3. Borracheira, R. Emílio M'Bidi, antiga Garcia de Resende, Alvalade
4. Raízes de borracheira, R. Emílio M'Bidi, antiga Garcia de Resende, Alvalade
5. Raízes de borracheira, R. Emílio M'Bidi, antiga Garcia de Resende, Alvalade


6. Palmeira de leque e mangueira, R. Emílio M'Bidi, antiga Garcia de Resende, Alvalade
7. Mancha verde na R. Emílio M'Bidi, antiga Garcia de Resende, Alvalade
8. Vista parcial da Av. Marien N'Gouabi, antiga António Barroso, Maianga
9. Vista parcial da Av. Marien N'Gouabi, antiga António Barroso, Maianga
10. Vista parcial da Av. Marien N'Gouabi, antiga António Barroso, Maianga


11. Vista parcial da Av. Marien N'Gouabi, antiga António Barroso, Maianga
12. A única mulemba da Av. Marien N'Gouabi, antiga António Barroso, Maianga
13. Jovem palmeira real, complexo TOTAL, Av. Marien N'Gouabi, antiga António Barroso, Maianga
14. Uma das pracetas da Av. Marien N'Gouabi, antiga António Barroso, Maianga
15. Vista parcial da Av. Marien N'Gouabi, antiga António Barroso, Maianga


16. Árvore florida na Av. Marien N'Gouabi, antiga António Barroso, Maianga
17. Pormenor das flores da mesma árvore na Av. Marien N'Gouabi, antiga António Barroso, Maianga
18. Borracheira, araucária e outras árvores, Alvalade
19. Borracheira, algures em Luanda
20. Mangueira com folhas novas, Alvalade


21. Palmeira em pacífica convivência com outra espécie, Alvalade
22. Mancha verde na Sagrada Família
23. Mancha verde, Av. Cdte. Gika, antiga Norton de Matos, Alvalade
24. Neias (pitta clobium), oficina ao ar livre, junto ao Parque da Independência, km 1 da Estrada de Catete
25. O povo sob neias (pitta clobium), junto ao Parque da Independência, km 1 da Estrada de Catete


26. Árvores na região do Parque da Independência, km 1 da Estrada de Catete
27. Palmeiras e mancha verde no Parque da Independência, km 1 da Estrada de Catete
28. Coqueiro solitário, Av. 4 de Fevereiro, antiga Paulo Dias de Novais (Marginal)
29. Casuarinas na Ilha de Luanda
30. Casuarinas e amendoeiras na Ilha de Luanda


31. Mancha verde junto ao Museu Nacional de História Natural, Kinaxixi
32. Acácia rubra, Av. Cdte. Gika, antiga Norton de Matos, Alvalade
33. Árvore, Av. Cdte. Gika, antiga Norton de Matos, Alvalade
34. Árvore, Av. Cdte. Gika, antiga Norton de Matos, Alvalade



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[ Crónicas ] Inserção em 31 de Março de 2006. [ Página Principal ]