"Backgrounds Etc."

"Primeiras Letras em Angola"
Biografias de Mestres

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Ralph Lusitano Delgado de Carvalho fez contrato com a Câmara Municipal de Luanda, para exercer as funções de professor de primeiras letras numa das suas escolas, em 17 de Junho de 1901. Este contrato veio a ser renovado passado dois anos.

Nos princípios deste século eram frequentes os acórdãos lavrados pelo Conselho de Província, relativos aos professores e às suas reivindicações. Em 16 de Setembro de 1902, era negado provimento a um recurso interposto pelo professor Ralph Lusitano de Carvalho, que desde Março deixara de receber o subsídio mensal de dez mil réis, que a Câmara se negara a pagar-lhe. Efectivamente, a Câmara Municipal de Luanda comprometera-se a dar casa para a escola, mas não para a residência do mestre. Ora as aulas funcionavam num dos edifícios camarários. O Conselho de Província reconheceu que o facto de lhe já ter sido indevidamente pago aquele subsídio, durante algum tempo, não dava ao professor Ralph Lusitano Delgado de Carvalho o direito de continuar a recebê-lo.

No dia 10 de Outubro seguinte, era já nomeado professor da Escola Principal de Luanda, sem direito a remuneração alguma. Tomou posse do cargo no dia 3 de Novembro desse ano. Talvez possa compreender-se que aceitasse o encargo naquelas condições para se impor perante a cidade, uma vez que a Escola Principal era considerada um estabelecimento de ensino superior ao primário; habitualmente trabalhavam aqui sacerdotes, advogados, professores com estudos universitários, e outras individualidades destacadas da cidade de então. Quanto à sua actividade, devemos recordar que deixou de funcionar durante vários anos...

Este agente de ensino foi nomeado, em 15 de Junho de 1904, para fazer parte de um júri de exames a efectuar em Luanda. Estes actos eram naquele tempo acontecimentos marcantes na vida citadina, assistindo muitas vezes aos trabalhos as mais destacadas personalidades, sendo presididos até algumas vezes pelo secretário-geral. E o próprio governador-geral ia por vezes assistir... O presidente deste júri era o capitão Alfredo Pereira Batalha; o outro vogal era o P. António Gonçalves Brás, que exercia também funções docentes, em Luanda.

Ralph Lusitano Delgado de Carvalho foi nomeado, a 2 de Agosto de 1906, para exercer funções de magistério na Escola Profissional D. Carlos I, nesta cidade, que recentemente tinha sido fundada. Tomou posse do cargo a 25 de Setembro. Contudo, declarava-se que ficava adido à Secretaria-Geral de Angola, em condições que não é possível estabelecer...

Este professor era o autor de um livro que se tornou conhecido, por ser usado como compêndio escolar durante vários anos, e que era vendido em diversas lojas da cidade e também na Imprensa Nacional de Angola. Este livrinho foi confirmado para ser adoptado como compêndio nas escolas primárias deste território, em 28 de Janeiro de 1907, por despacho do próprio ministro da Marinha e Ultramar. Durante muito tempo, mesmo durante anos, o Boletim Oficial de Angola, inseriu um anúncio a fazer propaganda daquele trabalho. O seu título era Primeira Lições de Economia Doméstica.

Sabemos que a obra em referência tinha sido aprovada pelo Conselho Inspector de Instrução Pública, em 5 de Abril de 1906. Era usada nas escolas de segunda classe, as escolas primárias que preparassem para fazer o exame do segundo grau. Ralph Lusitano Delgado de Carvalho fora o único autor a responder ao concurso aberto em 21 de Outubro de 1905. Apontaram-se alguns defeitos ao livro, sugeriram-se alterações, mas reconheceu-se o seu mérito e mereceu ser aprovado, não só em Luanda mas também em Lisboa, como acabamos de verificar.

Encontramos este professor a fazer parte do júri de exames em Fevereiro de 1907, devendo ser o proponente, pois o seu nome aparece em último lugar. Nesse ano funcionaram dois, na cidade. O primeiro era constituído pelo Dr. Manuel Alves da Cunha, pela Irmã Antónia Maria George e pela professora Carolina Deolina Teixeira de Sousa; o segundo era formado pelo Dr. Alberto de Sousa Maia Leitão, pelo cónego Francisco Afonso Boavida e pelo nosso biografado.

Nos exames de 1909, aparecem-nos alguns nomes já indicados e outros novos. Quanto a estes, referiremos o Dr. André Lopes da Mota Capitão, o cónego José Pereira Mendes e a professora Maria Luísa Bastos Mascarenhas. Mais curiosa é a constituição do júri dos exames da Escola Profissional D. Carlos I, neste ano de 1909, sendo presidido por Ernesto Augusto Gomes de Sousa, que tinha exercido já, durante algum tempo, em 1906, as funções de governador-geral e era então o “Inspector da Escola”; os vogais eram o director do estabelecimento, António Januário da Silva, e este professor; havia um suplente, para que foi nomeado o P. António Moreira Basílio.

Ralph Lusitano Delgado de Carvalho, foi nomeado ainda administrador do Bié, em 15 de Outubro de 1909, tendo sido exonerado em 23 de Dezembro seguinte. Dizia-se expressamente que “o carácter essencialmente técnico deste estabelecimento exigia a permanência do seu pessoal próprio”. Se bem entendemos, queria dizer-se que a Escola Profissional D. Carlos I era um estabelecimento de ensino de carácter técnico e reconhecia-se que precisava de manter o pessoal qualificado que ali trabalhava. Mas esta exoneração deve ter ficado sem efeito, visto que, em 22 de Janeiro de 1910, Ralph Lusitano Delgado de Carvalho terminava o curso dos seus dias, em terras do Bié, ocupando ainda o cargo de administrador do concelho.

Arrastava-se, nessa altura, uma pendência com a Câmara Municipal de Luanda, por ter sido indevidamente afastado do serviço. A sua morte arrumou a questão, por não ser convenientemente tratada pela sua viúva, Maria Columbina Corte Real Delgado, que passou a residir ou já residia na Metrópole, em Mortágua. Esta senhora foi também professora de instrução primária em Angola, tendo exercido o magistério em Porto Alexandre.

Ralph Lusitano Delgado de Carvalho e Maria Columbina Corte Real Delgado eram os pais do escritor e historiador Ralph Delgado, que dedicou à memória de seu pai a sua conhecida História de Angola, de que o Banco de Angola está a fazer a segunda edição. O conhecido historiador faleceu em Lisboa a 25 de Janeiro de 1970.

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