"Backgrounds Etc."

"Primeiras Letras em Angola"
Biografias de Mestres

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João Feliciano Pedreneira é o nome de professor que nos aparece, em 1878, e exactamente no mês de Dezembro, a assinar os mapas escolares referentes à escola do concelho da Barra do Bengo. São bastante frequentes as notícias que dizem respeito a este indivíduo, embora sob outros aspectos, distintos do mister docente. Cremos ser o escritor e jornalista que, em regra, assinava os seus artigos e estudos com a forma camuflada de J.F. Pedreneira. O conhecido estudioso e investigador Mário António engloba-o no número dos indivíduos cujos conhecimentos nos domínios da história da linguística, da etnografia não são hoje para desprezar.

João Feliciano Pedreneira desempenhava as funções de chefe do concelho da Barra do Bengo. Poderá ter acontecido que, excepcionalmente, tivesse a seu cargo a actividade superior do concelho e até da região, do que dão testemunho diversos documentos, e nomeadamente a portaria de 29 de Janeiro de 1879, que o nomeou para ir fazer uma sindicância aos actos do capitão Francisco Pereira dos Santos Van-Dunem, chefe do concelho do Alto Dande, pouco depois de demitido das respectivas funções.

Encontramos referências a João Feliciano Pedreneira cerca de dez anos antes, em relação ao concelho de Pungo Andongo, ao ano de 1868 e dia 19 de Maio. A Câmara Municipal, de que ele era presidente, solicitava a criação de uma escola naquela localidade; lembrava que em tempos pouco afastados tinham sido enviados para ali muitos europeus, em cumprimento de penas judiciais, por delitos cometidos, e que outros se fixaram na região por sua livre vontade, poucos já eram vivos, porém deixaram numerosa progénie, que vivia educação e costumes descuidados. E dizia-se textualmente: - Mete dó ver muitas dessas crianças, algumas bem claras e quase todas interessantes, sem educação alguma, sem conhecimentos sobre religião, não falando a língua pátria, mas sim o brutíssimo ambundo, e, claro está, sem as menores noções de leitura, contabilidade, etc. Ora nesta vila algumas senhoras há a quem se possa encarregar a educação das meninas, especialmente D. Caetana Inês Pires Tavira, senhora de esmerada educação europeia, para a qual seu abastado pai não poupou despesas. Esta Câmara, desejando prover uma tão instante necessidade, procurou saber se a dia senhora aceitaria tal encargo, e com muita satisfação obteve a anuência, mediante a retribuição, assás, módica, de oito mil réis mensais.

A informação lançada sobre esta proposta foi francamente favorável. Na capa do respectivo processo há uma nota que diz singelamente: - Criada a cadeira em Pungo Andongo; 5 Out. 68. Por baixo foi rabiscada um rubrica, que parece corresponder à de Latino Coelho, então a ocupar lugar de ministro da Marinha e Ultramar.

Apesar de não ser natural de Angola, veio de muito novo para esta terra e nunca mais voltou à Pátria. Dotado de inteligência aguda e possuindo notáveis qualidades de trabalho, prestou valiosos serviços à causa política, produzindo escritos de certo mérito, que deixou dispersos por diversas publicações e que nunca foram compilados, como merecem. Cooperou sempre no progresso de Angola, pelo que muito se interessou.

Por ocasião do seu falecimento salientava-se que morrera pobre, fora infeliz como poucos e que a sua vida se assemelhava a uma via dolorosa, pois sofria de doença grave. Era reconhecida a sua integridade e honestidade. Contava sessenta e dois anos de idade e tinha o posto de capitão de segunda linha.

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