"Backgrounds Etc."

"Primeiras Letras em Angola"
Biografias de Mestres

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Gustavo de Almeida Serpa Pinto era natural de Oliveira do Douro, concelho de Sinfães, distrito de Viseu, onde deve ter nascido em 1851, visto que em 1887 contava trinta e seis anos de idade. Possuía, além dos exames elementares da instrução primária, estudos de Língua Portuguesa, Francês, Latim e Latinidade, Filosofia, Oratória, Desenho, História e Ciências Naturais (ou História Natural, na designação do tempo).

Em 11 de Março de 1886, era nomeado para ocupar o lugar de professor da escola masculina do concelho de Massagano, tendo sido exonerado por portaria de 9 de Setembro. Outra informação, no entanto, afirma ter-se mantido no cargo desde 10 de Março até Novembro desse ano.

No dia 3 de Março de 1887, Gustavo de Almeida Serpa Pinto era nomeado professor para a escola do sexo masculino da vila de Catumbela, devendo ocupar interinamente o cargo. A informação anual, datada em 31 de Dezembro seguinte, diz a seu respeito:

- Parece ter interesse pelo desenvolvimento dos alunos. Faço dele um regular conceito.

O professor Gustavo Serpa Pinto obteve a exoneração do cargo ocupado, por portaria com a data de 17 de Março de 1888. Continuamos, todavia, a ter notícias da sua actuação, ou antes, dos seus projectos audaciosos.

Em 4 de Agosto seguinte, requereu autorização para pôr em execução um meio humanitário, profícuo e honroso de civilizar os povos de Angola, sobretudo os que residiam entre Catumbela e o Bié, por forma absolutamente nova entre nós, a instituição de uma escola móvel.

Gustavo de Almeida Serpa Pinto confessava ter obtido resultados surpreendentes pelo Método de João de Deus, que considerava o mais racional e o mais adaptado à inteligência dos analfabetos. Não podendo criar-se escolar em todos os pontos, poderia deslocar-se o professor de uma povoação para a outra, ficando de cinco a seis meses em cada uma delas; durante esse tempo, ensinaria a ler e a escrever os alunos que frequentavam as aulas.

Recordava que era indispensável opor um dique eficaz à ambição dos estrangeiros, que mantinham escolas e leccionavam na sua língua, em diversos pontos do interior do nosso território. Deveria, por certo, referir-se às escolas das missões católicas.

Na informação prestada ao ministério, a propósito desta iniciativa, o secretário-geral de Angola dizia:

- As escolas móveis representam um progresso e a sua adopção será dos melhores resultados para o desenvolvimento da instrução. Porém, o estado da instrução primária na Província é tão precário, tão atrasado, que me parece estarmos ainda muito longe de devermos adoptar estas escolas. Numa Província onde nenhum exame tem precedido a nomeação de professores, nem uma vistoria a aprovação das casas e mobílias, e em que nem todos os concelhos se acham dotados com a escola primária, onde não há regulamento do ensino, a aceitação da proposta do requerente parece-me declinável por enquanto, pois há maiores necessidades a atender ao ensino, e lacunas importantes a preencher, e nisso ando empenhado, em harmonia com os desejos do digno chefe da Província.

Reorganizou-se o Concelho Inspector de Instrução Pública, nomeei sob sua proposta algumas Juntas locais de inspecção de ensino, e outras nomearei em breve; organizou-se o júri para exames em Luanda e no Dondo; e estou organizando, para submeter ao Concelho Inspector, o regulamento da instrução primária, modelado pelo do reino, na parte em que se não opõe o decreto de 30 de Novembro de 1869, a que é subordinado, e nele se atenderá à distribuição e provimento das cadeiras, à escolha dos edifícios e mobílias escolares, e a muitas outras necessidades da instrução que no reino são de há muito consideradas e atendidas.

Enquanto estes trabalhos não tiverem produzido todos os resultados que deles espera este Governo-Geral, e se não regularize o estado da instrução, julgo extemporâneo e precipitado o oferecimento do suplicante.

A estas considerações, baseadas no estado da instrução na Província, acresce que a criação da escola móvel indicada trará despesas que não estão atendidas no orçamento: gratificações extraordinárias, transportes, etc.

Finalmente, receio que sob o zelo pela instrução, inculcado pelo requerente, se encubra o intuito reservado de ir, com despesas pagas, exercer o comércio na região compreendida entre a Catumbela e o Bié, que muito bem se presta a isso. Já há na Província, e no distrito, exemplo de indivíduos que, oferecendo-se para servir o Estado, em comissões móveis de interesse público, só tiveram o intuito de ir de sobado em sobado fazer transacções comerciais à custa do Estado.

O requerente, que não passa de um aventureiro com habilidade, irrequieto e volúvel, não oferece garantias de que não procederá da mesma forma.

É, pois, minha opinião que o seu oferecimento só poderá ser tido em consideração quando, regulado o ensino e inteirado o Conselho Inspector da capacidade, Zelo e merecimento de cada professor, possa informar que este cumpre o seu dever no lugar que desempenha, e dá garantias de que o seu zelo é verdadeiro e sério o seu oferecimento.


A longa informação que acabamos de transcrever integralmente tem a data de 21 de Agosto e foi assinada por Joaquim de Almeida e Cunha, cujo nome está ligado, por diversos títulos, ao desenvolvimento escolar de Angola. O curioso documento dá-nos informações preciosíssimas para podermos fazer ideia do estado da instrução em Angola, que não satisfazia e que só muito tempo depois começou a ter remédio eficaz – já fora do período considerado para este trabalho.

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