Ref.: Sir Mortimer Wheeler – Cap. II de Índia e Paquistão, Londres 1959.

por Júlio Alves Victor *





As indústrias líticas da Índia cabem em três grandes ‘séries’ [interdigitadas na cronologia do registo arqueológico]: I e II com aspectos inferior [ou primitivo] e superior [ou evoluído] e III ou microlítico. Delas [até 1959] só as séries I e III são suficientemente distintas.


Séries I e II

A série I é a que se conhece por soan (do vale do rio do mesmo nome, afluente do Indo), de uma indústria chelo-musteriana que se mantém única no sub-continente de 400.000 a 50.000 a.a.p.; associa-se à caça de espécies de Elephas, Bos e Equus e compreende talhadores (pebble tools)
(1) e lascas (2) , picaretas (3) da típica indústria indiana conhecida por de Madrasta, que variam de um rude tipo abevílico, não tão específico como na Europa, ao achêulico que se lhe sobrepõe, e lascas levaloásicas. Na Índia setentrional (Punjabe e Caxemira), onde houve quatro glaciações como na Europa, os talhadores mais antigos foram lascados em seixos depositados durante a segunda, Mindel (0,4 e 0,3 m.a.a.p.): (4) serviam caçadores de Elephas nomadicus, como no centro da Índia, e, tipicamente, encontram-se misturados com picaretas; no terraço seguinte, escavado no inter-glacial Riss/Würm, o depósito seixoso da base contém ainda ferramental chélico idêntico ao anterior; o loess que o cobre contém material levaloásico de corte moderno, associado com ‘oficinas’ e com dentes de cavalo e de cão ou lobo; no terraço abaixo há utensílios soan e madrasta; nos dois seguintes não há materiais de interesse, e o 5º é pós-Plistocénico. Nas estações do r. Sirsa (afl. do Sutlej, no sopé dos Himalaias, Punjabe) o soan é idêntico e também associado apenas com os três primeiros terraços. Nas do r. Chambal e seus afluentes (Rajastão) a série I contém não só talhadores, lascas clactónias e picaretas madrasta, mas também lascas levaloásicas; estas caracterizam os níveis de série II, com raspadeiras mas sem picaretas nem cutelos. No vale do Jumna há picaretas madrasta seguidos de lascas levaloásicas, mas não talhadores chélicos.

A mistura destas três industrias – pré-soan de grandes lascas clactónias, talhadores de cutelo e de ponta do tipo soan, e picaretas madrasta – repete-se no centro e sul do sub-continente indiano. Note-se que: a) as ferramentas chélicas são mais abundantes, relativamente às picaretas achêulicas, no norte que no sul: indicam focos de irradiação chélica a norte e achêulica a sul; b) a inversão estratigráfica destas indústrias denota deriva e sobreposição das culturas respectivas, necessariamente contemporâneas; não há sequência tecnológica local de aperfeiçoamento, como em Olduvai,
(5) mas esta pode, de resto, não ser seguida mesmo em África, como parede ser o caso das ferramentas rostro-carenadas da estação de Victoria West (África do Sul), análogas às de tipo madrasta. Têm-se atribuído (6) as picaretas de Java e da Malásia a uma tecnologia independente da indiana e excluído «inteiramente... o coup-de-poing acheulense [e] a lasca levalloisense do extremo Oriente», onde dominam os talhadores; as picaretas e os aperfeiçoamentos levaloásicos tipificam o Paleolítico da Índia, Ásia ocidental, África e Europa central, do sul e ocidental mas não penetram o extremo Oriente. (7)



1. Os cutelos chélicos indianos aparecem como seixos quebrados e lascados para darem um gume irregular único, ou inteiros em que se lascou uma ponta, estes possivelmente os antepassados do picareta.
2. As lascas são dos tipos a) clactónico – de Clacton, no Essex, Inglaterra – por percussão de um bloco não facetado, dando um ângulo de 110 a 125º com a face ventral da lasca e um grande cone de percussão ou b) levaloásico; o autor não indica se este os tipos estão estratigraficamente separados.
3. As picaretas indianas são produzidas por percussão clactónica, mas depois trabalhadas nas duas faces; as de corte achêulico são de secção lanceolada, com dois gumes, por vezes enormes, de até 30 cm de comprimento.
4. A meados do Plistocénico e expostos na área de Potwar, com centro em Rawalpindi; em sedimentos do 1º terraço, cortado no cascalho superior, do primeiro interglacial.
5. Em Olduvai os talhadores colocam-se por excesso (podem ser anteriores) na parte inferior do Plistocénico médio; são talhados grosseiramente «pela remoção de lascas em duas direcções de um dos lados do seixo [vindo a transformar-se] logicamente em coups-de-poing muito simples, lascados em três ou quatro direcções, de modo que as duas arestas dentadas se intersectam numa das extremidades.» Vêm a ser substituídos na estratigrafia por ferramentas rostro-carenadas como as de Victoria West, sucedidas, por sua vez, por peças biconvexas, e por fim, por achêulicas perfeitas.
6. Movius, Hallan L. – Early Man and Pleistocene Stratigraphy in Southern and Eastern Asia, 1944.
7. Zeuner, pelo contrário, inclui tanto talhadores como picaretas nas «séries principais» da Eurásia.



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Natural de Moçâmedes, hoje Namibe, Angola. Amigo e colega no Helderberg College, África do Sul, nos anos 60. Depois de terminar os estudos universitários, em Geologia, fixou residência naquele país.

Agradeço ao Júlio Victor mais esta contribuição. Com a sua vasta cultura, conhecida por todos os seus amigos, é uma honra receber a sua colaboração dedicada à nossa Terra Angola.


Inserção em 18 de Abril de 2005.

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