Estamos Unidos e Reconciliados?


Artigo de José Maria Huambo

in Folha 8 (bissemanário),
Pág. 10, de 7 de Fevereiro de 2004 - Luanda, Angola.















Naufragamos como País que pretendia navegar pela rota da prosperidade. Estagnamos no tempo e no espaço.

Perdemos muito tempo em bagatelas ideológicas, fúteis discórdias, evitáveis conflitos e inúteis querelas que nos fizeram mergulhar em densas trevas, que só nos atiraram para uma inglória morte e repugnante indigência. Para recuperarmos o tempo perdido, construirmos uma grande Pátria e repormos Angola no contexto das nações dignas, e citando D. António Ferreira Gomes, “importa fazer uma análise profunda e uma autocrítica inexorável e porventura impiedosa do que fomos, para vermos o que podemos e devemos ser”.

Caso contrário, o longo e controverso processo culminado no dia 4 de Abril de 2002 transformar-se-á num empreendimento inglório e num insensato desperdício de vidas e energias.

Mais do que em qualquer outra época da nossa conturbada história, temos agora a suprema oportunidade de lançar os sólidos alicerces de uma sociedade nova, organizada, aberta, próspera e unida. Dispomos do soberano ensejo de derribar a velha sociedade, edificada sob as divisões étnico-ideológicas, estruturada no fanatismo político, alicerçada na intolerância racial, étnica e sociocultural, e cristalizada na má governação que tiranicamente impera entre nós.

O tempo que corre oferece-nos, enfim, a peculiar ocasião de recolocar Angola na digna rota do progresso e do desenvolvimento. Mas apesar desta soberba ocasião, continuamos a persistir nos mesmos erros, a conservar os mesmos vícios e escamotear as verdadeiras premissas de uma autêntica paz, unidade e conciliação. A poderosa e influente minoria desavinda está a engendrar uma conciliação inter partes, a repartir entre si a exclusiva responsabilidade na definição da nova Constituição e do novo rumo do País, e ignorando os profundos anseios dos cidadãos, tenciona deixar de fora do melindroso processo de “Reconciliação Nacional” as outras forças vivas da sociedade angolana.

Julgo serem três as premissas de uma autêntica paz, unidade e conciliação. Para que a paz seja entre nós um valor consolidado, para que estejamos verdadeiramente unidos e conciliados e para construirmos um verdadeiro País precisamos de partir das seguintes premissas:

Primeira: Somos um País plurirracial e multinacional ou multiétnico. Por mais que a propaganda insista no “um só povo e uma só nação”, o facto é que a nossa sociedade abarca uma diversidade racial, étnica, cultural, social e até religiosa.

Por isso, haverá sempre entre os angolanos grandes diferenças na forma de ser, estar, pensar, sentir, agir, viver e conviver. Por exemplo: os urbanos sempre distinguiram-se do tipo de vida, do ambiente e da mentalidade dos rurais. A fronteira entre “nós” e “eles” estará sempre enraizada nas consciências dos negros, dos mestiços e dos brancos do nosso País. A forma como um Ganguela encara a problemática da morte é muito diferente da de um Kimbundu. São dissemelhantes os conceitos de família e de riqueza entre um Ovimbundo e um Mucubal. São distintas as concepções jurídico- morais de um Cuanhama e de um Bakongo. Os rituais em torno do nascimento e do casamento são vividos de formas diferentes entre um Nhaneca e um Tchokwé. Os negros, mestiços e brancos nados e criados em cada uma das regiões angolanas serão sempre distintos uns dos outros. Isto porque, e como bem asseverou Ferreira Deusdado, “o indivíduo é sempre mais ou menos, da sua província, da sua cidade ou da sua aldeia e conserva a pronúncia, o espírito, o carácter e os hábitos adquiridos nas condições mesológicas em que se desenvolveu. Cada um de nós deve à sua terra um conjunto de traços, um tipo de organização, de aptidões especiais, de pensar, de conceber e de exprimir a beleza, um fundo tradicional de costumes e até uma linguagem especial”.

Portanto, há entre nós, uma clara diferenciação entre os rurais e os urbanos. Uma perfeita consciência identitária em cada um dos grupos raciais e uma sólida consciência étnica em cada uma das nações angolanas. Torna-se, assim, absolutamente inevitáveis as clivagens raciais e os antagonismos etnossociais. Porque todos sabem que pertencem a um grupo (racial, étnico, político e sociocultural). Essa noção de grupo e de pertença a ele, quando relacionados com a percepção de diferenças em relação a outros grupos, podem ter uma conotação de valor positivo ou negativo. E essa noção de grupo e de pertença podem ser acompanhados de emoções, tais como amor ou ódio, gostar ou não gostar, dirigida a um grupo próprio e para outros com os quais têm certas relações.

Mas fazer tábua rasa ao direito à diferença; igualizar os angolanos pela obrigatória submissão e prestação de vassalagem a grupos hegemónicos e intolerantes; construir a unidade dos filhos de Angola a partir de unicidade (racial, étnica, política e sociocultural), tem sido uma onerosa opção e uma trágica conduta sucessivamente repetidas por colonizadores, nacionalistas, descolonizadores, libertadores, defensores do “povo angolano” e da “Angola profunda”, por mediadores, observadores, pacificadores e por “especialistas” em assuntos angolanos. Infelizmente, o impropriante chamado “processo de paz e reconciliação”, ardilosamente planeado por meia dúzia de “sábios e clarividentes”, prepara-se para navegar no mesmo erro.

Segunda: A “Angola independente e africana” não existe. É uma miragem jurídico-política, uma ficção geográfica e uma falência sócio-económica. Aquilo a que vulgou-se chamar “República de Angola” não passa de ruínas de um projecto arquitectado e edificado pela e para a “comunidade branca” da Angola colonial. Durante a quase três décadas da nossa pretensa independência não fomos capazes de construir um País e consolidar um Estado. Antes pelo contrário limitamo-nos a destruir e a degradar de forma insensata tudo aquilo que os colonos ergueram: pessoas; estruturas económicas, administrativas e financeiras; cidades e vilas; estradas; pontes; etc. Não se pode, por isso, falar de “reconstrução” de um País que nunca foi edificado.

Mais. Os angolanos nunca formaram uma Nação edificada e homogénea como os colonizadores e estão longe de possuir uma sólida consciência nacional. Não se pode, por isso, falar de “reconciliação” de um povo que nunca esteve conciliado. O próprio colonialismo não fez brotar dos angolanos a consciência nacional, porque apesar da administração portuguesa ter congregado negros, brancos e mestiços bem como os diferentes grupos étnicos num mesmo espaço territorial, nem todos partilhavam do sentimento de pertença à Nação portuguesa e nem todos usufruíam das benesses da portugalidade.

A “independência” não foi capaz de conciliar os diferentes grupos raciais, étnicos, políticos e socioculturais em torno do lindo, digno e promissor projecto anelado, por todos e arquitectado pelos nacionalistas que, independentemente da sua cor da pele, etnia ou região, pretendiam fazer de Angola uma Pátria livre, igualitária e próspera. Antes pelo contrário, a pretensa “independência” agudizou as diferenças étnicas e raciais, acentuou as desigualdades socio-económicas e exacerbou os antagonismos etnossociais de tal forma que, tal como antes da presença colonial, continuamos inconciliados, estranhos uns aos outros e, pior, hostilizamo-nos de tal forma que Angola tornou-se num hediondo palco de uma infame “cadeia alimentar”, onde as cruéis disputas entre “presas e predadores” superam, de longe, os melhores documentários sobre a vida selvagem produzidos pela conceituada BBC: os “civilizados” desprezam os “gentios”. Os ditos “genuínos” hostilizam os “crioulos”. Os negristas acharam que os brancos e mulatos não podiam ser angolanos. Os racistas nunca conceberam uma Angola com “pretos”. Os cafusistas acham que os angolanos de pele clara têm primazia sobre os negros. Alguns “angolanos” advogam que Angola é Luanda e o resto é paisagem. Outros acham que os Kimbundos são os mais “evoluídos” e estão acima dos outros nativos. Os ditos “puros mangolês” hostilizam os Bakongos, a quem apelidam de “Zairenses”. Os Cabindas não querem nada com os “angolanos”. Os rurais não vêem as vantagens da angolanidade e continuam à espera da “independência”. Os do Cunene acham que, enquanto angolanos, muito têm perdido.

Os chamados “das províncias” acham-se marginalizados como angolanos. Os do MPLA mataram angolanos em nome de todos os angolanos. Os da UNITA chacinaram angolanos em nome da “Angola profunda”. Muitos já não querem ser angolanos. Enfim, é o caos total na infame “selva angolana”.

Assim, em nome de uma autêntica conciliação dos angolanos e para que todo o longo e controverso processo culminado no dia 4 de Abril de 2002 não se transforme num empreendimento inglório e num insensato desperdício de vidas e energias, torna-se imperioso identificar os males que enfermam a nossa sociedade, que exploram e manipulam as nossa naturais diferenças e obstam a convivência fraterna entre todos os angolanos. Torna-se obrigatório combater os vícios destrutivos da unidade, diagnosticar as verdadeiras causas do infame naufrágio do projecto anelado por todos e arquitectado pelos nacionalistas.

Enfim, e parafraseando D. Manuel Vieira Pinto, urge examinar á luz da verdade a situação em que se encontra o nosso País. Examinar o que é bom para assumir e potenciar, examinar o que é mau para o abandonar e destruir.

Terceira: cumpridos os dois primeiros passos, torna-se absolutamente imprescindível que todas as forças vivas da sociedade angolana participem na definição do novo rumo de Angola e na materialização das ingentes tarefas de uma Pátria profundamente devastada e de uma sociedade tão problemática como a nossa.

O País não pode continuar a ser propriedade exclusiva de alguns grupos hegemónicos e intolerantes. “Angola deverá ser a Pátria benévola de todos os seus filhos e não apenas de minorias intolerantes que se comportam como donas dos destinos da nossa terra e do nosso povo”, como bem diziam em 1960, Viriato da Cruz e Mário Pinto de Andrade num manifesto que denominaram “Segundo Apelo à Unidade”. Torna-se, assim, imperiosa a “intervenção” de um modelo de Estado que vise assegurar a coesão de um mosaico de raças, línguas, etnias e culturas tão heterogéneas, por forma a que ninguém se sinta submetido, excluído ou humilhado. Enfim, é necessário que se discuta e se repense o País que pretendemos construir. É imperioso que se arquitecte um projecto político, social e económico que seja capaz de enquadrar num quadro institucional com realidades socioculturais tão distintas, por forma a unir e conciliar os angolanos, corrigir as profundas desigualdades socio-económicas, tornar menos sensíveis e menos virulentas as inevitáveis conflitualidades e expurgar os infames fermentos da guerra.

Portanto, estamos muito aquém da verdadeira Unidade e Conciliação Nacional. E para alcançar a meta tão almejada por todos nós ainda teremos de fazer um longo e íngreme percurso que exige novos homens, nova cultura política, novos projectos, novos ideais, novos rumos e impõe uma profunda conversão das consciências, das mentalidades, das maneiras de ser angolano, de pensar o País, de viver a angolanidade e de estar e conviver com os outros. E acredito profundamente que tudo o que se fizer para priorizar e valorizar as premissas de uma autêntica paz, unidade e conciliação e para combater as graves desordens que reinam em Angola contribuirá para conciliar os angolanos, construir um grande País, edificar a desejável paz duradoura e evitar o germinar contínuo e insufocável de revoltas e rebeliões.

[ Encontro com a Escrita ] Inserção em 26 de Fevereiro de 2004. [ Página Principal ]