Resenha por Júlio Alves Victor *


Boskop – A hipótese afrocentrista de uma raça negra pré-coisânica encontrou algum apoio na descoberta deste famoso crânio na fazenda do mesmo nome no distrito de Potchefstroom, África do Sul, em 1913; trata-se, porém, segundo R. Singer (E.B., vol. 3, pp. 982-3), de um fóssil coisânico.

Drávida – Grupo isolado de línguas dos povos aborígenes da Índia e Ceilão, sem associações com outras línguas asiáticas, faladas actualmente por povos geneticamente muito diferentes; a mais arcaica é o Kuwi (ou ‘Cuí’), aparentada com o Konda falado pelas etnias Gondi (q.v.) do país Gonduana; as línguas drávidas falam-se até ao norte da Índia, e para o leste até ao golfo de bengala, especialmente na província de Madia-Pradeche e nas montanhas de Rajmahal.

Gondi – Relativo à linguagem e etnia dos Gondas, povos aborígenes da região indiana de Gonduana, país montanhoso que se estende dos montes Vindía, a norte, para sudeste até ao baixo Gondovari e aos Ghats orientais; o Gondi não é uma das línguas escritas da Índia, e todos os que ainda falam um dos dialectos chama-se a si próprios ku Itur
(1) (‘Koitur’).

As terras altas gonduânicas de Bastar eram habitadas pelas duas tribos mais importantes, os Múria e os Mária, estes divididos em Mária lavradores
(2) e Mária montanheses, que formavam clãs patrilineares exógamos, ligados pela religião e reunidos em tribos (3) distintas. Os montanheses são os de economia mais primitiva, praticando a agricultura itinerante (slash-and-burn) nas florestas, enquanto os outros já cultivam com boi e charrua nas faldas das montanhas; destes os mais evoluídos desenvolveram uma organização feudal e conheciam-se dos outros povos indianos por Raj Gonds.

Todos os Gondas veneram os antepassados e crêem na ‘alma dupla’,
(4) da qual uma parte regressa, após a morte do corpo, à terra de origem dos antepassados, e a outra se reintegra no deus supremo, Bhagwan, de onde se disponibilizará para incarnar num novo membro da família do morto.


1. Cf. nome da região de floresta montanhosa da divisória continental Nilo-Conguesa, o Ituri.
2. Os ‘lavradores’ são os bison-horn Mahria dos etnógrafos ingleses, nome relativo aos toucados que usam nas suas danças rituais.
3. Ou “unidades territoriais”, no texto da E.B.
4. Também uma crença comum aos Pigmeus e a alguns povos Sudânicos.




Negro – Um africano racialmente caracterizados por pele melânica, prognatismo mais ou menos pronunciado, determinadas proporções dos membros e alta frequência populacional do complexo sanguíneo Ro, divididos, na Etiópia ocidental, (1) em três grupos que eram, originariamente, muito distintos fisicamente: o Sudânico, ocupando a savana, entre a faixa desértica do Saara e a floresta equatorial, da costa atlântica ao rio Nilo: gente alta e de corpo delgado, tez muito escura e fraca pilosidade, de nariz largo e crânio sub-mesocéfalo, tipificada pelos Jalofos e os Aussá, descendidos das populações nilóticas das baixas húmidas da confluência do Bahr-el-Ghazal com o rio Nilo; o Hamítico, (2) da região da margem direita do alto Nilo, da Somália ao Uganda: também gente delgada, alta, de tez escura e pouco pilosa, mas com nariz afilado e proeminente, face longa de maxila quadrada, ou ‘ortógnata’, e dolicocefalia pronunciada, tipicamente os Somali, Massai (Quénia), Tutsi (Ruanda) e Hima (Uganda); o Pigmeu, gente que habitava de preferência as florestas da faixa equatorial: de pequena estatura, tez castanha e mais ou menos pilosa, nariz muito curto e largo, ou ‘platirrínico’, tendência à braquicefalia e proporcionamento acentuado dos membros, com duas populações distintas, os Batwa (tez clara e muito pilosa, cabeça proporcionalmente grande, feições e proporções dos membros extremas) e os Bambuti (fisicamente o Sudanês, mas em ‘miniatura’). As populações sudânica e hamítica têm-se também referido como ‘nigrícios’ e os Pigmeus como ‘negrilhos’.

Em teoria, os Pigmeus seriam o produto de cruzamento de populações védicas
(3) que entraram em África pelo estreito do Sinai, o Suez, c. 8000 a.C. – e os povos coisanóides caçadores que há muito habitavam o continente: o físico dos Bátua seria o resultado, com a característica tez clara e o cabelo frisado herdado dos coisânicos, (4) e a pilosidade e proporções antropométricas dos Vedas (q.v.); os Hamitas poderiam ter resultado de miscegenação, em África, (5) entre populações védicas do nordeste de África, hoje Somália, e os colonos caucasóides pré-históricos da margem ocidental do mar Vermelho; (6) os Bambuti e Sudaneses representariam estágios sucessivos de apuramento mesológico de uma população originariamente lacustre, por cruzamento de Hamita e Bátua. A teoria miscegenatória das – hoje – vastas populações negras de África, apoia-se na evidência biológica geral, com referência ao forte efeito de transferência e apuramento genéticos por cruzamento e isolamento mesológico, de pequenas populações, como eram as humanas que existiram na pré-história africana.


1. Ou seja, a África, em contraste com a outra Etiópia – terra de gente a que os gregos se referiam como ‘de cara queimada’, Etíopes – a oriental, isto é, a Índia e Oceânia.
2. Um grupo mestiço, isolado por razões históricas na África ocidental, os Fulas ou Fulfulde, apresentam também as características métricas dos Hamitas da África oriental.
3. Os Vedas, aborígenes típicos da Índia e Ceilão, descendidos de populações negras da Oceânia e entre quem a falciformia é tão comum como em África, pensa-se estarem ainda representados no Hadramaute da península arábica.
4. Os Khoisan não são, obviamente, classificáveis no mesmo tipo antropométrico e fisionómico dos Negros, conquanto uma moderna corrente intelectual, impelida por forças mais políticas que antropológicas, pretenda o contrário.
5. A arqueologia demonstra que o tipo hamita arcaico estava estabelecido no Quénia muito antes do aparecimento de Negros de fisionomia massai na região.
6. Ainda no século XX estava representada no Hadramaute uma população de feições anatólicas, uma população branca caracterizada pelo nariz mais proeminente de todas as variante da raça caucasóide.




Veda – Povo aborígene de Ceilão, antigamente espalhado até Jafna mas hoje confinado às regiões montanhosa do sudeste da ilha: contando 5.300 almas no censo de 1911, têm sido muito absorvidos na população singalesa e c. 1965 já não passavam de 800. Fisicamente um ramo da população mais antiga da Índia meridional, sudoeste asiático e Indonésia, caracterizada pela tez melânica e cabelo ondulado, pequena estatura de 5 pés e pouco, e dolicocefalia; tradicionalmente falavam uma língua drávida (q.v.), viviam em grutas, conheciam a olaria e faziam fogo com paus, vestiam-se com tecido de casca de árvore, caçavam com arco e flecha e colhiam plantas e mel. Os acasalamentos eram monogâmicos e o divórcio raro; (1) os mortos eram depositados em grutas, a religião baseava-se no culto dos antepassados, com espiritismo praticado por xamãs (2) e muito ligado à prática da caça. (3)


1. Efeito da economia caçadora, como a dos boximanes e dos negrilhos.
2. O nome americano do perito religioso conhecido no sub-continente africano por nganga.
3. Ambas características – xamânica espiritista e caçador-propiciatória – comuns às culturas silvestres africanas, vejam-se a dos negrilhos e mesmo a dos quiocos.



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Natural de Moçâmedes, hoje Namibe, Angola. Amigo e colega no Helderberg College, África do Sul, nos anos 60. Depois de terminar os estudos universitários, em Geologia, fixou residência naquele país.

Uma vez mais, agradeço ao Júlio Victor a contribuição deste trabalho.



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Inserção em 30 de Março de 2005.

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