A Cidade Mãe
e a sua Província


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Os Elefantes Que Eu Não Cacei

carta de Isidro Cardoso a Hugo Seia



O ronronar monótono e cadenciado do bimotor da SAL (Sociedade de Aviação Ligeira) que me transportava, ao fim de 24 anos de ansiosa espera, de volta à cidade das acácias rubras, criava em mim uma letargia nostálgica que me fazia sonhar.

Mas sonhar não será também viver?
Não há duvida que continuo a ser um sonhador, querendo viver num mundo de fantasia, negando-me a encarar a realidade da vida que nos rodeia e nos magoa pelo egoísmo que impera na sociedade a que pertencemos.

Ver nos outros um pedaço de nós mesmos, proceder com consciência – eis o que é ser sincero, e o sincero sonhador, sonha.

Sonhar… no próprio sonho é o meio de podermos rever tempos corridos e revive-los. Assim, é pois tempo de manifestar aos outros aquilo que na realidade somos e não aquilo que pretendemos fingir ser.

Embalado nestas conjecturas, o tempo passou e o pequeno avião descia já em direcção à pista que eu tão bem conhecia doutros tempos - o Dokota -, sonho realizado de todo o Benguelense bairrista duma época já distante a que eu também pertencia. Anos de sonhos por este momento, faziam ultrapassar todas as expectativas. Voltar ao fim de 24 anos e sentir que os laços que nos uniam eram mais fortes agora do que antes, continuar a amar a terra que me viu crescer e alimentou o meu espírito de aventura.

Finalmente voltava a encontrar-me, a ser eu mesmo, o garoto irreverente e audacioso que já em 1953, quando ainda estudante do colégio de Nun’ Álvares, escrevera sobre a cidade que sempre esteve no seu coração:-


Não é novidade afirmarmos não passar a nossa vida de um acontecer incessante. O homem tem a tendência natural de desdobrar o decorrer de instantes, denominado tempo, em passado, presente e futuro. Assim sendo, localizamos os nossos actos no tempo, sempre em relação a um acontecimento passado. Aqui, meu bom amigo Hugo, amante de paraísos perdidos, como eu, vou contar-te algo que nunca chegaste a saber porque aconteceu algum tempo depois de teres saído de Benguela.

Lembras-te da serra Monapi? Encravada entre o rio Catumbela, o Capilongo, o rio Halo e o Cabio. O meu interesse por essa área, ainda não explorada por falta de acesso, surgiu depois de uma semana passada no Cabio, próximo do pomar de citrinos do meu bom amigo Durães, em companhia dos bons companheiros Celestino Esteves (o Cilé para a rapaziada da época) e o José Jaime Birrento Lopes da Silva (o Birras). Ah! bons amigos, como eu gostava de os abraçar e recordarmos juntos os nossos devaneios de então com a bicharada, sentimento que o tempo e distância não fazem esquecer. Ali, havia de tudo o que nos interessava, em suficiente quantidade de molde a satisfazer os ímpetos de qualquer caçador. E o deambular por aquelas picadas na mira de bons trofeus, despertou em mim o tal bichinho agressivo que sempre proliferou no meu sangue, como doença crónica – a aventura. Ali mesmo começaram as perguntas no meu interior – como será a parte de cima da serra? – como será e o que haverá para o lado do rio Catumbela? Será que…?!

Lembrei-me do teu paradisíaco Mamué onde também tinhas de tudo o que na altura te interessava em “quantidades industriais”, como a rapaziada dizia na gíria da época. Esquece o Mamué!... Deixa-me voltar ao que te ia contar.

Logo na primeira oportunidade que me surgiu aparelhei a velha “Chevrolet” e armado e equipado aí vou eu, para a minha aventura, acompanhado do Shamberama e do Binga Macoto, dois trabalhadores da fazenda do meu pai, bons pisteiros já com provas dadas, e que se diziam conhecedores da área que me interessava de onde diziam ser originários.

Tendo dez dias para dar satisfação à minha curiosidade e tentar transformar os meus sonhos em realidade, deixei Benguela pela manhã bem cedo, a fim de aproveitar ao máximo o tempo de que dispunha para consumar os meus propósitos. Chegámos á base da serra pelo lado do Capilongo ainda o sol não aquecera, pelo que resolvemos explorar um pouco a área na tentativa de localizar o melhor lugar para iniciar a picada que nos levaria encosta acima até ao cume, através da penedia e vegetação agrestes que cobriam toda a encosta. Localizado o ponto considerado aceitável, atacámos a fundo o trabalho de abertura do caminho tão desejado. Entre “catanadas”, “pasadas”, machadadas, rolar de “calhaus” e alguns impropérios - não é que eu fosse muito especialista nessa matéria mas que ajudava a descarregar a tensão, lá isso ajudava -, fomos avançando até que o sol implacável e o calor “de partir pedras” nos reduziu o ímpeto inicial e resolvemos dar repouso aos nossos corpos bem suados, sedentos e esfomeados.
Comidos e bebidos…!!

Meu caro Hugo, ao quinto dia consegui levar a “Chevrolet” até ao cimo e, se até ali a luta tinha sido titânica, o que se apresentava à nossa frente não nos encorajava nada a prosseguir, mas, como tu bem sabes, nunca gostei de perder e o desafio aguça-me o apetite de lutar. Apesar do pouco tempo que ainda me restava resolvi continuar. Essa decisão foi compensada poucos quilómetros adiante pois o terreno foi-se tornando mais acessível. Da unha de gato, pau de candeia, ximbungu, espinheiras raquíticas mas agressivas e pedras e mais pedras, a mata passou a ser mais aberta com alguns ungirites e mutiatis espaçados, capim longuço rasteiro e aqui e além alguns tufos de kalaviri baixo que facilitou grandemente a movimentação da minha companheira de quatro rodas.

Com o Binga Macoto adiante, saltitando de contente por não ter tantos paus para cortar e pedras para deslocar, mas sempre atento ao terreno, não fosse a carrinha meter alguma roda em buraco de gimbo, lá íamos avançando já no platô do cimo da serra, ainda com alguns contratempos. E o tempo, no seu caminhar incessante, passava.

O sol majestoso nos seus tons de poente de nós se despedia, chegando assim ao fim mais esse dia de labuta pelo que resolvemos parar, preparando-nos para passar mais uma noite e descansar o melhor possível até à manhã seguinte.

Falar-te no ritual que caracteriza a noite passada no mato, que tu tão bem conheces, seria como querer ensinar ao prior da freguesia como se reza o “Pai Nosso”, por isso passemos adiante.

Ao sétimo dia, logo que a primeira claridade do dia nos trouxe visibilidade suficiente para prosseguir, lá nos pusemos a caminho e, entre mulolas pouco profundas e ligeiros altos e baixos, íamos avançando á medida que o sol ia aquecendo mais e mais mas, para satisfação nossa, a mata começava a tornar-se mais viçosa emprestando ao ambiente um pouco de frescura. Aqui e além, algumas árvores de Gongo com a copa um pouco mais frondosa começavam a despertar em mim a vontade de fazer aquilo a que até esse momento não tinha tido ensejo de dar satisfação: dar uma volta pelo mato, a pé, para me consciencializar da verdadeira realidade que me rodeava, pois que até esse momento todo o nosso esforço se havia concentrado em atingir o primeiro objectivo, o que efectivamente já conseguíramos: abrir a picada da base até ao cimo da serra.

Logo após, a nossa concentração derivou para a abertura do caminho que nos levaria pela parte de cima até ao rio Catumbela, o que em parte se estava a conseguir a um ritmo aceitável, mas o tempo voava inexoravelmente e mais um dia ia chegando ao fim. Por detrás das penedias, como que servindo de pano de fundo, o sol poente já bastante baixo no céu dava uma imagem de mágica beleza á paisagem, como pintura aprimorada de pintor inspirado.
Acredito que, em ambientes desta natureza, sítios como este se tornem em lugares onde as histórias do dia a dia se transformem em verdadeiros mitos, exagerados por efeito do ambiente intoxicante da beleza que nos rodeia.

Parámos para pernoitar e retemperar forças para o dia seguinte – o oitavo.
O dia nasceu radioso e quente. Depois do pequeno almoço, demos inicio á continuação da picada que nos iria, por certo, nesse dia levar ao lugar dos meus anseios - o “Rio” -, pois a vegetação transformava-se a cada quilómetro percorrido. Não queria pensar nisso por agora. Interessava-me mais concentrar as nossas forças e atenção nos obstáculos que se nos opunham a cada passo, em conformidade com o nosso avanço progressivo na direcção por mim determinada: a da liberdade e do mistério.

Descansámos á sombra de uma acácia mais frondosa durante as horas mais quentes do dia e, no meu isolamento do mundo, enquanto o Shamberama e o Binga Macoto giboiavam, pensei como era estranho e maravilhoso, para mim, ter encontrado e viver ainda que por poucos dias naquele paraíso, enquanto que para os meus companheiros, que neste mato nasceram, cresceram e viveram grande parte da sua existência, o seu paraíso era o lado oposto, exactamente aquele de onde eu tinha vindo - a cidade.

Após termos descansado, de novo nos pusemos em movimento e a minha excitação e dos meus companheiros ia aumentando em conformidade com aquilo que se ia deparando aos nossos olhos, rastos e mais rastos de várias espécies, uns antigos, outros recentes, e alguns animais e aves, que até poucas horas antes raramente se nos mostravam, começaram a surgir como por magia, conforme o nosso avanço progredia em direcção á zona de um verde viçoso que se descortinava ao longe, mais abaixo do lugar onde nos encontrávamos, uns bons quilómetros adiante.

O declive que se nos apresentava pela frente era um pouco acentuado e com alguns obstáculos à nossa deslocação, porém, com o rolar do tempo, aproximou-se a noite, pelo que optei por passá-la ali mesmo, por me parecer mais seguro, guardando para o dia seguinte o culminar da nossa odisseia. Dormi mal essa noite, o meu subconsciente era permanentemente massacrado pelos rastos da bicharada que durante grande parte do dia fomos encontrando pelo caminho e o meu consciente deu continuidade a essa situação quando me sentei ao lado da fogueira olhando as pequenas chamas que ainda se mantinham consumindo os velhos troncos de mutiati e ungirite que haviam alimentado a fogueira até essa hora da madrugada, mantendo os intrusos suficientemente afastados, não impedindo porém as suas manifestações, possivelmente de revolta perante a nossa ocupação selvagem do território que a eles sempre pertencera.

O nono dia nasceu nublado como prenúncio de uma chuvada que se avizinhava mas, a meio da manhã e com o vento que se levantara, as nuvens foram-se tornando ausentes e o sol acabou por surgir, primeiro como que envergonhado, logo após, radioso e quente, como a querer dizer-nos:- Aqui quem manda sou eu!!

A boa disposição imperava em nós, apesar do cansaço que eu sentia depois da noite mal passada, e a movimentação em direcção ao rio fazia-se a bom ritmo naquele universo de respiração e crescimento, quando o Shamberama, que ia um pouco mais adiante, parou e nos alertou, fazendo sinal para nos aproximarmos.

A minha vitória estava ali, bem impressa nas areias revolvidas e lavadas daquela mulola que algum tempo atrás tinha sido açoitada por forte enxurrada.

A minha mente tinha criado até aquele momento uma imagem da Monapi, simplesmente nunca me havia ocorrido a possibilidade de encontrar elefantes ali e muito menos animais de bom porte como o demonstravam algumas das pegadas impressas naquelas areias, poucos dias antes.

Conforme a picada e o tempo iam avançando, mais sinais da actividade dos elefantes se tornavam óbvios. O calor abrasador e húmido do pós meio dia tornava apocalíptica a atmosfera que nos rodeava, associada à visão de destroços de toda a ordem, já na parte baixa, junto à margem do rio, provocados pela passagem de uma manada em debandada. E a pergunta surgiu na minha mente como relâmpago em dia de tempestade: serão estes os elefantes que todos os anos, na mesma época, aparecem no Hombe?

Sem sinal algum de ocupação humana ou mesmo da sua passagem, a não ser agora a minha presença e a dos meus companheiros, numa zona tão inóspita e isolada como aquela, porque razão a debandada sem razão aparente?

O ar morno do avizinhar da noite começava a saturar-se com os aromas agridoces das plantas silvestres circundantes, Lonomo, Namae Koto-Kota, e, pela primeira vez em toda a minha vida, senti-me dividido entre o sentimento de euforia e a pena dos animais.

Euforia, por ter encontrado qualquer coisa de novo e interessante numa zona que de momento só nós conhecíamos e tínhamos acesso, mas a essa satisfação inicial seguiu-se um ligeiro sentimento de mal-estar e o que pude exprimir foi uma profunda compaixão pelos bichos, compaixão pelo seu destino de correrias, não sabendo como nem para onde, à procura de um espaço, longe do terror, onde, por poucas semanas, um dia, ou mesmo algumas horas, pudessem adiar a morte ou, angustiados descansar e recobrar as forças para teimarem em viver até á próxima bala, pois matar não exige grande esforço, o esforço é mínimo, o efeito é grande, porque na realidade nos foi dada a possibilidade não de dar a vida, mas de a tirar…!


O avião estacionou e parou os motores.
Estava enfim em Benguela, cidade onde as loucuras da minha juventude encheram as gavetas da minha memória, revividas hoje, já velho, nas recordações contadas aos meus netos e avivadas às vezes por amigos, que comungaram dos mesmos sentimentos e situações, quando em convívio ameno.

Recordar é viver! Alguém o disse.
Mas para mim viver tem de ser mais do que recordar, tem de ser mais do que manter a célula em reprodução contínua com a única finalidade de manter o meu corpo erecto dando-lhe a capacidade de activar as suas mais comuns necessidades fisiológicas.
E não é a saudade do passado que me martiriza o espírito, mas sim a necessidade de viver novas aventuras e acumular novas experiências. Só isso me rejuvenesce e me dá forças para continuar.

Meu pai tinha razão quando um dia me disse:- “A vida sem emoção não é vida”.
Depois de cumpridas as formalidades de desembarque, saí do aeroporto e deambulei pela minha cidade, só, procurando o quê, nem eu sabia! Queria ver tudo, negando-me a olhar para a desgraça. Nesse deambular sem rumo, onde a cada passo eu sentia que era conhecido pelas pedras das calçadas que eu vi calcetar, pelo asfalto das ruas que eu vi asfaltar, pelos tijolos das casas que eu vi construir, pelas árvores das ruas que eu vi plantar, pela terra, enfim, que me viu crescer, acabei por dar por mim no velho bairro da Peça, onde fui ainda encontrar a árvore, uma acácia rubra, que eu plantei no dia da árvore, quando menino de escola, na minha 1ª classe.

A fotografia é dela e minha e o soneto que escrevi, a ela é dedicado:-

De caça, penso, estás tu cansado!...
Do que matei e como, muito teria que escrever!...
Assim preferi falar-te só dos elefantes que eu não cacei – os do HOMBE.
A picada, essa ficou lá…
Os elefantes desapareceram!...

Meu irmão, meu bom amigo,
o meu abraço.

(Contribuição de Hugo Seia.)

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