A Cidade Mãe
e a sua Província


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"Benguela e o Mamué Vistos por um Caçador"

por Hugo Seia

(Pequeno texto baseado no livro “MUNDJAMBA – a vida de um caçador africano”, de Hugo Seia.)


Nasci em Maquela do Zombo e, depois de alguns anos passados em Silva Porto, com 15 anos de idade, fui viver para Benguela, a cidade de Angola que recordo com mais carinho e considero a “minha Terra”, com o orgulho tão próprio dos que lá nasceram. É provável que o factor idade estivesse na origem dos meus amores pela linda cidade das acácias rubras, ou talvez Benguela fosse simplesmente “uma cidade mãe de cidades”, como um amigo meu, Abel Bolota, um dia a ela se referiu, capaz de seduzir quem por lá passasse. A verdade, que não me deixa dúvidas, é que se trata da Terra onde gostaria de ter nascido, que fez de mim um dos seus filhos mais dedicados. Como diziam os velhos Benguelenses, era impossível a todo aquele que bebesse água do rio Cavaco não ser filho da Terra ... e eu bebi-a à chegada!

Os meus amigos, do “peito” como se dizia por lá, são na sua grande maioria oriundos de Benguela, responsável pelas melhores recordações que guardo da minha juventude, mas simultaneamente testemunha do maior desgosto da minha vida, a tragédia da morte prematura do meu Pai, o melhor amigo, o melhor companheiro, o meu gigante dos sonhos e da realidade.

Contrariamente aos hábitos da rapaziada da minha idade, eu dedicava o meu tempo livre a caçar, acompanhando o meu Pai e amigos, sempre que uma oportunidade se apresentasse.

Os arredores de Benguela eram ricos em caça. O “plateau”, como era conhecido o planalto que se situa a poucos quilómetros da cidade, deslumbra quem sente a beleza natural das serras, dos vales, das ravinas, dos rios secos, a par dos majestosos imbondeiros e das agressivas espinheiras unha de gato, entusiasmando simultaneamente os caçadores com manadas de ungires e de cabras de leque, de esquadrões de zebras, de casais de punjas e de cahínes.

É a esse tempo, já tão antigo, que pertence o jogo do gato e do rato, cujos protagonistas eram o fiscal de caça, por um lado, e nós, o Isidro Cardoso, os irmãos Taborda Teixeira e eu próprio, pelo outro. O fiscal era o gato e nós, obviamente, o rato, mas não posso deixar de dizer que o fiscal era o pai do Bebé e do Nando Teixeira e mais tarde foi meu padrinho de casamento. À sexta-feira saiamos para a caça e no final de domingo regressávamos, não sem antes deixarmos em diversas pescarias o produto do nosso fim-de-semana, que era usado para a alimentação dos trabalhadores.

Naquela época, o caçador de Benguela que mais marcou a minha juventude foi indubitavelmente o Álvaro Eugénio, com quem passei inesquecíveis fins-de-semana na sua chitaca, onde criava gado, lá para os lados da Calaanga, terra de muitos elefantes, de búfalos, de gungas e ungires, de facocheros, impalas, golungos, punjas, bambis, concas, cahínes e de outras espécies.

Outros dois amigos, o Luís Paula e o Armando Azevedo, foram companheiros de muitos episódios que guardo bem presentes, apesar dos anos que hoje deles me separam.

Foi em Benguela que, em 1959, tomei a decisão de não ser doutor ... ou engenheiro ... ou titular de qualquer outro “canudo”. Numa tarde de muita coragem, esperei em casa o regresso do meu pai e disse-lhe o que sentia e o que queria fazer da vida. Sabia que nunca daria um bom médico ou bom engenheiro. Nem mesmo poderia ter sido um bom advogado. Com os meus 17 anos de idade, porém, sabia com convicção que o meu sonho de menino, o sonho de ser chefe de posto quando fosse grande, para poder viver isolado e perto dos bichos, teria que ser realizado. A reacção de meu pai não foi a que eu esperava e receava. Reflectiu um pouco e prontificou-se a ajudar-me na decisão de interromper os estudos e ingressar no Quadro Administrativo de Angola. Seis meses depois era colocado na Ganda, com 18 anos de idade acabados de cumprir, onde apenas estive alguns meses como aspirante administrativo.

Já novamente em Benguela, após a morte de meu Pai, vi-me obrigado a enfrentar a responsabilidade de chefe de família. Tinha a minha mãe e uma irmã com oito anos de idade a meu cargo, facto que me isentou do serviço militar, permitindo a minha colocação no Posto Administrativo do Mamué, perdido entre as pedras da Munda Evambo ou Serra da Neve, longe dos homens e perto dos bichos. O meu sonho de menino acabara de ser realizado.

O Mamué foi “meu” durante uns anos, numa época em que era isolado, selvagem e indesejado pela maioria dos homens. Para mim, contrariamente, o Mamué foi o paraíso e dele guardo muitas e boas recordações, tantas que nem o tempo, nem posteriores experiências, nem outras áfricas, evitarão que ocupe o lugar cimeiro das minhas memórias.

Foi durante a minha estadia no Mamué que me casei, com uma Benguelense, a Maria Alice, Loup para os colegas e amigos. Com apenas 19 anos de idade – eu tinha 23 – na companhia de um marido completamente entregue à vida de mato, sempre mais perto dos bichos do que dos homens, imaturo ainda, habituado a não encontrar obstáculos na vida fácil que até ali vivera, teve alguma dificuldade em adaptar-se àquele novo estilo de vida. Filha única, rodeada de mimos dos pais, criada na cidade, foi, contudo, uma jovem corajosa que soube vencer a luta a que se propôs e, ao longo dos anos, provou ser a melhor companheira e a melhor amiga que qualquer homem e caçador poderia desejar.

O Mamué era uma área administrativa com cerca de 12.000 km 2, sob a jurisdição do Governo do Distrito de Benguela, rejeitada pelos chefes de posto que não aceitavam a sua situação geográfica e consequente solidão. Em viagem que corresse bem, no tempo seco, um "Land-Rover" tardava doze longas horas no percurso do Mamué a Benguela ou vice versa, apesar de poder contar-se com cem quilómetros de boa estrada. Maus eram apenas cerca de duzentos quilómetros, em picada serpenteando montanhas rochosas e áridas, atravessando planícies cortadas por ravinas fundas, cortando rios secos, cujos leitos arenosos se transformavam em autênticas armadilhas durante as chuvas, para os incautos que se arriscavam a cruzar as enxurradas de águas revoltas e barrentas que corriam a velocidades endemoninhadas, arrastando árvores e troncos e tudo e todos que as desafiassem. Os maus acessos, a inexistência de uma pista de aterragem, mesmo para pequenos aviões, o difícil contacto via rádio, já que os velhos P 19 nem sempre cumpriam a sua missão, o isolamento e a solidão, tornavam o Mamué indesejado, como já afirmei antes. Tudo isso, porém, foi o que transformou o Mamué no espaço mais importante das minhas memórias e das minhas recordações. O Mamué do meu tempo era na realidade um paraíso selvagem. Muito acidentado, com uma vegetação semi-desértica e de transição para a savana arbustiva, que cobria quilómetros sem fim, constituída por capim e espinheiras unha de gato, colossais imbondeiros e fantasmagóricos mupembatis, resistentes mutiatis e acácias espinhosas, cactos e outras plantas xerófilas, num conjunto de tons castanhos durante o cacimbo e de tons verdes durante as chuvas. Nas serras pedregosas e nas planícies arenosas com afloramentos graníticos e de quartzo, rasgadas por rios secos cujas margens eram revestidas de vegetação mais densa e fresca, com muxitos fechados e sombreados por grandes mulembas e resistentes acácias, viviam milhares de animais, absolutamente adaptados às grandes secas, ao intenso calor do dia e ao frio cortante da noite.

Havia milhares de elefantes. Havia ungires como em nenhuma outra parte de África que eu conheça. Havia gungas e guelengues do deserto. Havia zebras de planície e de montanha, cabras de leque, konkas, bambis, punjas, cahínes e facocheros. Nas zonas de transição entre a árida, seca e agreste vegetação semi-desértica, e a savana arbustiva, matas de mutiati eram habitat de palancas vermelhas, de impalas de face negra, de potamocheros e até de golungos. Havia muita onça, mas o leão era raro, assim como o búfalo e o rinoceronte negro, espécies que raramente apareciam, vindas de terras do Sul, lá dos lados do Distrito de Moçâmedes.

No Chinquite, a sede do Posto Administrativo, apenas existia um edifício - o que servia de secretaria e de residência ao Chefe do Posto - construído entre pedras gigantes que no passado haviam rolado pela encosta íngreme da segunda maior montanha de Angola, a Munda Evambo ou Serra da Neve, como era mais conhecida, com 2.496 metros sobre o nível do mar. Junto à residência corria um riacho, o Chinquite, que dera o nome ao local, que trazia da serra a única água cristalina da região e que desaparecia ali mesmo, bebida pela terra sequiosa do sopé da montanha. A presença de água enriquecia de verde a vegetação e a grande mulemba que sombreava a casa e se carregava de pombos verdes quando também se carregava de figos.

O Chinquite era considerado o oásis da região. E não se enganava quem assim o considerava. Depois de quilómetros percorridos através de terreno seco e agreste, aquele pequeno e fresco ponto verde era, na verdade, um oásis num verdadeiro deserto. O rumorejar das águas do pequeno riacho, o canto dos kutes, das rolas e das anduas, os voos das capotas e das perdizes, os charcos que pareciam pequenas piscinas naturais na encosta íngreme da serra, onde viviam pequenos peixes e saborosos lagostins, eram componentes que diferenciavam o Chinquite do resto da região, permitindo a agradável sensação de frescura para o sertanejo que enfrentava as agruras próprias duma região semi-desértica.

Para além das tribos locais de Mucuandos, Mucubais e Mucuisses, a população do Chinquite era constituída por oito cipaios com as respectivas famílias, que ocupavam um aldeamento construído a trezentos metros do edifício do Posto. A cinco quilómetros, em local conhecido por Capira, vivia o António Varges, caçador furtivo e funante, solitário habitante da Capira, que chamava atrevidamente “loja” à construção de pau-a-pique com dois compartimentos, um usado como quarto de dormir e sala de estar, e outro, cuja mobília constava apenas e só dum balcão tosco e sebento, que pretendia ser a loja propriamente dita. O vinho em barril que chegava de Portugal era, na Capira e na loja do António, o único artigo para venda ou, para ser mais claro, a moeda usada no funanço. Para a população local, que se dedicava exclusivamente à criação de gado, o boi constituía a moeda corrente. Dinheiro era artigo dispensável para a felicidade dos homens, desmentindo o mundo que se diz civilizado e que não sabe viver sem ele.

A três quilómetros do Chinquite, na picada que dava acesso ao Posto do Camucuio, uma área administrativa já pertencente ao Distrito de Moçâmedes, existia nas faldas da Munda Evambo um tanque a que os homens de boa vontade chamavam piscina e que havia sido construído para armazenar água para o gado. Esse tanque tinha a particularidade de ser abastecido por uma nascente de água sulfurosa que brotava da pedra. E, porque junto à nascente daquela água quente - tão quente como se saísse de esquentador moderno -, que diziam ter propriedades medicinais, havia uma pedra negra que soava como sino de igreja, chamavam-na N’Dolondolo, que significa sino num dialecto local. O N´Dolondolo substituiu, durante anos, o maravilhoso mar de Benguela, onde os rapazes da minha idade se bronzeavam na fantástica Praia Morena ou mergulhavam nas águas quentes do Atlântico, mesmo quando as calemas ameaçavam a costa.

Para além da picada que dava acesso ao Camucuio e seguidamente a Moçâmedes, passando por Via Arriaga, o Chinquite estava servido por uma segunda picada que o ligava à Lucira, na costa, e finalmente por uma terceira que levava o viajante por montes e vales pedregosos até ao Dombe Grande, passando pelas pescarias da Baía dos Elefantes e Equimina. Do Dombe Grande, sede de outro Posto Administrativo e também da Companhia do Açúcar de Angola, à cidade de Benguela, havia escassos cem quilómetros de estrada de terra batida mas bem conservada, daquelas a que nós chamávamos “pistas”.

Anos antes de eu ter sido colocado no Mamué, alguém resolvera abrir uma picada que ligasse o Dombe Grande ao Chinquite, em linha mais ou menos recta, de forma a poupar distância e naturalmente reduzir o sacrifício que a viagem representava. Acontece, porém, que o projecto morreu com oitenta quilómetros abertos a partir do Dombe, na cordilheira do Chival, obstáculo absoluto para os meios de construção de estradas de então.

Durante a minha permanência no Mamué, acabei por ligar o fim da picada interrompida no Chival à que saía do Chinquite com destino à Baía dos Elefantes, encurtando alguns quilómetros ao penoso trajecto. Esse novo troço foi feito, aos poucos, caçando elefantes que se refugiavam na zona compreendida entre os rios Mamué e Chival.

O Mamué e o Chival eram os dois rios principais de toda a área, embora apenas durante as chuvas tivessem água resultante das habituais enxurradas. O primeiro, vindo do Camucuio, dava nome a toda a área que atravessava no sentido Sudeste-Noroeste, mudando de nome quatro vezes até desaguar no Atlântico. Começava por se chamar Mamué, no ponto onde mais próximo passava da sede do Posto Administrativo, depois Oncócua, Hanja, e por último, Catara, até à sua foz, depois de serpentear gargantas profundas e pedregosas. O Chival era um rio de maiores proporções, também ele rasgado em ravinas profundas, obrigando-o a verdadeira gincana pelos desníveis constantes do terreno. Ambos eram, pelas gentes de então, conhecidos por “rios secos”.

A região litoral, entre a foz do Catara e a povoação da Lucira, sede do Posto Administrativo do mesmo nome e pertencente ao Distrito de Moçâmedes, era árida, seca, montanhosa, e o único lugar do território Angolano onde tenha conhecimento da existência de camelos selvagens, embora os curiosos animais não fossem nativos. Contava-se que muitos anos antes, alguém importara alguns exemplares para o transporte de água doce para uma pescaria mas, chegando à conclusão que, apesar de adaptados a tão inóspitas paragens, os camelos não resolviam o problema, o seu proprietário desistiu da sua empresa, abandonando a pescaria e deixando os pobres camelos à sua sorte.

É indiscritível a beleza natural do maravilhoso território ao qual o Mamué pertence e lamentavelmente pouco se escreveu sobre essa beleza. A descrição que se segue, de um conhecido naturalista americano dá, melhor do que eu seria capaz, uma boa ideia daquelas paradisíacas paragens, tão longe da civilização e tão perto da Natureza:

“Entre Moçâmedes e Benguela estende-se uma região desértica de pedras, areia e espinheiras, quase sem água e desabitada, com a excepção da presença de nómadas Bakuandos, meio Negros e meio Bosquímanos, que deambulam pela zona com os seus rebanhos de cabras, e alguns Portugueses e pescadores nativos que vivem junto à costa. A região é um paraíso do caçador. Subir manhã cedo ao mais alto cume de algumas montanhas, sentarmo-nos recebendo a brisa fresca vinda do Atlântico e observarmos o nascer do sol rompendo o contorno de uma grande montanha, é experiência inesquecível. Assim que a luz clara rompe através dos cumes das colinas e começa a irradiar luz nas planícies, todos os pormenores são claramente visíveis. Nesse momento, a caça começa a movimentar-se e pode ser detectada com os binóculos a três ou quatro milhas de distância. Em baixo, na planície, manadas de delicados “springbucks” (cabras de leque) deslocam-se entre a vegetação, de tufo em tufo de erva, projectando sombras azuladas sobre o fresco solo arenoso. Por trás, um “gemsbuck” (guelengue do deserto) solitário, imóvel como se tratasse de escultura talhada em pedra, põe-se de repente em movimento com o característico balançar da cabeça e, num passo rápido, junta-se a uma manada que pasta na margem dum curso de rio seco. Mais corpulentas e indolentes, zebras de montanha, em tons de cinzento claro e branco rosáceo, agrupam-se entre vegetação cerrada numa ravina pedregosa. O sol, entretanto, subindo acima dos cumes das montanhas, muda o azul frio na brilhante claridade duma manhã africana.”




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