A Cidade Mãe
e a sua Província


Página 19 de 28


O Voo

... em prol da História da Vila da Catumbela


Fui um dia destes surpreendida por um contemporâneo das vivências do Lobito que, depois de me entrar por esta janela escancarada ao mundo, me fez um inesperado convite. Inesperado e surpreendente. Surpreendente e louco. Louco e impossível! Isso pensei eu quando me convidou para o acompanhar num voo sobre o nosso muito amado Lobito. Surpreendente e louco porque estamos a milhares de quilómetros das nossas terras, porque se nega a lá voltar e porque piloto já não é. Mas, como o amor é imenso e a curiosidade sufoca, não resisti e sorrindo disse-lhe… sim! Estávamos ligados pela “nete”.

Perguntou-me então se eu tinha o “Google Earth”. “Não”, respondi em papel virtual. “Então instale já.”, disse-me em tom de quem está habituado a comandar. Feitos os procedimentos necessários, informei-o que estava já instalado e pronto. Deu-me as instruções e, num repente, dei por mim percorrendo o globo terrestre a uma velocidade vertiginosa para a terra onde nascemos e, ouvindo-lhe as instruções, coloquei esta aeronave a voar sobre o Lobito a uma espantosa altura de 1500 pés - recomendou o meu piloto. Fez-me rasar a pista do velhinho aeroporto do Lobito na direcção do mar, como se dali tivéssemos descolado e fizemos uma suave volta pela direita para um voo sobre a Restinga. Percorremos a praia até ao farol como sempre fez, dizia. Eu estava inebriada! “Esse é o meu chão! Esse é o meu ar, o meu mar!!!” Voltámos de novo pela direita sobrevoando a baía direitos agora ao seu Cassequel.

Deixei-me conduzir pelas suas mãos para o voo mais apetecido da minha vida… Não tinha palavras… Voávamos sobre as plantações de cana - … e esta, toda embandeirada, balançou-se ao vento, como que nos dizendo “olá!, que bom ver-vos de novo!” - com os lindíssimos talhões bordejados de palmeiras. Ele foi-me contando o que foram os seus anos loucos de Lobito… Avistámos a Catumbela e sobre ela muitas voltas fizemos para saborear cada canto, cada casa, cada metro de rio. Lá estavam as pontes e bem ao lado e em cima do morro o velhinho Reduto de S. Pedro, o forte das minhas recordações. O motor extraordinário que é o nosso cérebro activou de imediato as gavetas da memória…



E sobre o ele falámos e sobre ele fizemos juras de trazer para aqui como foi e o que foi para as gentes da Catumbela.

Continuamos o nosso voo idílico numa confortável altitude para nada perder. Eu estava a ser levada por quem tantas vezes, aqui nesta terra de sonho, saboreou os ares, o mar com as intermináveis praias, os morros, caminhos e descaminhos. Senti-me deitar a cabeça sobre no seu ombro e vi Benguela em frente. O meu berço ali estava debaixo do meu espanto. Praia Morena, Nossa Senhora do Pópulo, o Cavaco… meu Deus!, a casa onde nasci!!! Voámos para a Rua 11 à procura de um amor que o Aires de Almeida Santos fez viver em todos nós. Belisco-me… não é sonho, não! E pedi-lhe “Podemos ir a Mossâmedes?”, ao que de pronto me respondeu “Não se pode voar depois do pôr-do-sol e por isso temos de aterrar.”
Não resisti e dei-lhe um beijo!!!

É bem verdade que voar é coisa de momento, mas ser-se conduzida por quem sabe levar-nos aos lugares amados é como cuidar de plantas e as plantas têm raízes e as que visitámos não se arrancam de modo algum! Por muito afastados na distância que nos encontremos.
Plantar prolonga a vida!





Vá até alguns dos lugares sobrevoados.

Lembrete!: desça para os 1.500 pés para ter melhor visão!



Pista do Velhinho Aeroporto do Lobito: 12 22' 16.52"S, 13 32' 12.49"E

Reduto de S. Pedro, Catumbela: 12 26' 13.89"S, 13 32'30.67"E

Igreja N.S. do Pópulo, Benguela: 12 34' 35.86"S, 13 24' 10.73"E

Bº do Benfica, onde fica a Rua Onze, Benguela: 12 35' 12.59"S, 13 24' 45.13"E

Rua Onze: 12°35'7.22"S, 13°24'43.14"E




O som estridente da campainha da escola próxima do local da minha residência despertou-me. Ainda estremunhada olhei à volta… Afinal foi um sonho!... Parecia tão real…
Vieram-me à mente as inúmeras vezes em que sobrevoo a minha Terra Natal num voo de matar a saudade…
Há bem mais de um ano que comecei um texto no qual a percorro de lés a lés – um dia há-de ficar pronto!

Penso novamente no sonho e decido que este texto permanecerá aqui porque nos leva a lugares ricos de História, que tantas vezes tive o privilégio de percorrer e apreciar. Fará, e muito bem!, parte do trabalho sobre a Catumbela e o seu reduto que está a ser desenvolvido e que tanto me entusiasma. Embora vá devagar, há muito material… promessa de um trabalho acurado.



[ Página Principal ] [ Menu “Benguela, Cidade Mãe” ]