A Cidade Mãe
e a sua Província


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O Reduto de S. Pedro (ou Forte de Catumbela)

por Aida Saiago


Em adulta, na Província de Benguela, era um dos locais que procurava para me encontrar com a Mãe Natureza e comungar da paz que ali há.

Recordo-me, porém, que, desde criança, sempre que lá passava nas idas e vindas entre Benguela e o Lobito, olhava para o local com curioso interesse.

Quando me tornei independente em termos de transporte, aproveitei a primeira oportunidade para, logo a seguir à ponte de ferro que atravessa o Rio Catumbela, no sentido Lobito – Benguela, virar à esquerda e, entre vegetação, em estrada de terra batida, contornar o morro, numa subida pouco íngreme, que todavia exige atenção, pela sua estreiteza e falta de visão do que nos aguarda adiante...

Chegados ao topo, curvando à esquerda, chegamos a um largo. Encontramo-nos, então, diante do Reduto de São Pedro ou Forte de Catumbela.

O tipo de construção, rodeada por um muro alto e largo, dá-nos a imediata noção de que se trata de um edifício antigo. A sua posição, num ponto elevado, permite-nos, também, concluir que serviu de ponto de observação e, consequentemente, de defesa. Foi construído pelos portugueses em 1846.

Na altura em que comecei a visitá-lo, já tinha sido transformado em museu, diga-se, de muito fraca qualidade...

Desde logo me ressenti do facto de, num lugar tão cheio de História, não tivessem tido o cuidado de proporcionar ao visitante mais informações. Para mim, no entanto, estar ali, por si só, já bastava...

Nas primeiras visitas, não houve recanto que não vasculhasse, procurando nas paredes e nos poucos móveis os indícios que me levassem a aprender mais sobre o lugar.

Li com curiosidade o registo gravado na porta principal do Forte e registei-o em fotografia. (v. www.angola-saiago.net/cidmae5.html - “O Meu Testemunho”).

É a História gravada na pedra...

O Forte encontra-se no topo de um dos morros que abundam por ali... Naquele local, o Rio Catumbela corre baixo... lento... dando, até, a impressão que as suas águas estão paradas... Na sua margem direita, a vila que lhe tomou o nome espalha-se por eles acima, a Igreja Matriz sobressaindo na paisagem...

Próximo do Forte, no morro seguinte, a montante, avista-se um casarão abandonado. Indagava-me: “Quem terá vivido lá? Porque razão deixaram de habitar um local com vista tão privilegiada sobre o rio e toda a região circundante?”... “Será que pertenceu aos governantes da época e, uma vez que o motivo de ali permanecer deixou de existir, deixaram-no, votando-o ao abandono??? Será que foi um entreposto para o tráfico de escravos, das caravanas que de Benguela partiam rumo ao interior profundo de Angola???” “Por outro lado, a Vila da Catumbela chegou a ser um dos mais importantes postos comerciais de Angola...”

No meu texto “As Latadas”, refiro em www.angola-saiago.net/latadas3.html que o que aprendíamos sobre a História de Angola era ínfimo comparativamente ao que éramos obrigados a aprender - sob o poder colonizador – acerca do país Portugal. Só muito anos após a saída de Angola comecei a ter acesso a melhor informação, já que a possuíamos se perdera.

Daí as minhas indagações... das quais não me envergonho: acima de tudo está o meu amor por Angola, com muito ou pouco conhecimento... a minha enorme saudade...

Aquele local foi, enquanto vivi no Lobito, o meu refúgio, o lugar que procurava para encontrar paz, para aquietar o meu espírito. Ali, eu era parte integrante da Terra Angola.

A Mãe Lola foi, quase sempre, a minha companheira das visitas ao Forte. Tal como eu, ela amava o lugar.

Não havia necessidade de nos comunicarmos... bastava-nos estar ali... por uma hora ou mais... esmiuçando com o nosso olhar todos os recantos que nos eram permitidos visualizar... escutando os ruídos tão característicos: o rio, correndo preguiçoso... as suas águas barrentas pareciam espessas... após a ponte, a jusante, o seu delta cortando caminho através das palmeiras... o sino da Igreja, lá ao longe... o comboio apitando, atravessando a ponte de ferro... o ruídos do “Cassequel”, a fábrica de açúcar... e, ahhh!, o cheiro gostoso do melaço de cana que pairava no ar!... as vozes longínquas das lavadeiras à beira-rio, e também de crianças que ali se banhavam...

Imagens comuns a outros tantos lugares, mas para nós tão especiais, como espectadoras que éramos, lá de cima, junto ao Forte...

Em 2004, o meu amigo Dadica Pompeu, residente em Luanda, enviou a alguns benguelenses, seus amigos, fotos que fizeram parte de uma reportagem acerca da Vila da Catumbela, inserida na revista de bordo da TAAG, “Austral”, no ano de 2000. Constatei que o Forte continua a não se encontrar em boas condições de conservação. Tenho, todavia, conhecimento que, agora que Angola está em paz, existe a vontade e faz-se um esforço no sentido de se proceder ao restauro de locais que têm significado histórico para o país.

O Forte da Catumbela é com certeza um deles. Um dia, vê-lo-emos restaurado, a sua memória preservada!


Algumas Fotos do Forte da Catumbela e Seus Aredores


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