A Cidade Mãe
e a sua Província


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O CFB visto por Henrique Galvão

in Fascículo Nº 1 de Ronda de África

Editorial “Jornal de Notícias”, Porto-Lisboa


Primeiros dias de Maio.

Despontava nos cenários africanos de Angola, o “cacimbo” – isto é, a estação seca, durante a qual mirram águas nos rios e esmorecem no ar e na terra as ardências do Sol.

A menos de cem metros das ondas escaldantes e lânguidas do Atlântico, na estação de caminho de ferro do Lobito, ocupei o meu lugar no combóio, com destino a Lourenço Marques e a outra estação de caminho de ferro, também a menos de cem metros das ondas nervosas de outro oceano: o Índico.

Era a travessia do “mapa cor de rosa”, a travessia da África, de oceano a oceano, por terras nacionais de estrangeiras da História de Portugal, ao longo de mais de cinco mil quilómetros de via férrea.

Quando, anos atrás, concluíra em sentido inversos, e pela primeira vez, a mesma travesseia, resumira assim as minhas impressões:

”Não me arrependo de ter suportado esta sensaboria ferroviária, porque, enfim, sempre foi a travessia da África, e far-me-ia falta ignorar até que ponto se torna monótona, numa viagem em tais condições, e como é diferente e inferior às desconfortáveis e deliciosas viagens africanas, a pé, em carro bóer, mesmo em automóvel – enfim, as viagens em que o gozo da África se paga, sofrendo um pouco mais de outra espécie de canseiras do físico. Não me arrependo – mas farei todo o possível para não a repetir.”


A intenção não pôde cumprir-se.

Passados treze anos (ou o 13 não fosse mau número) encontrei-me novamente despachado em caminho de ferro, para a travessia desta desolada faixa da África – que ainda hoje não posso deixar de considerar mais aritmética do que literariamente. Assim: mil e quatrocentos quilómetros de Angola – e o que falta parra mais de cinco mil, através do Congo Belga, das Rodésias, da África do Sul e do gargalo de garrafa que é o Sul de Moçambique!

E depois, com o rodar do tempo e o rilhar dos ossos do ofício, ainda outra e outra vez, sempre com o propósito de não repetir.

Que remédio! El-rei manda marchar, não manda chover.




O combóio abalou ao escurecer, depois do Sol, que vinha das bandas para onde eu ia, se ter apagado no mar – o Atlântico que quase entra na estação do Lobito.

Uns minutos de demora em Benguela e torneamos decididamente para Leste. Subimos já, em noite escura e por degraus de cremalheira, as vertentes ásperas do planalto – e, daí por diante, tudo se passou, até ao romper do dia, como em qualquer outro combóio confortável da Europa.

Às dez horas da manhã uma paragem em Nova Lisboa, e, depois batendo calhas, tragando pó, a caminho do Bié e do Moxico.

Paisagem pobre, sempre pobre – uma vez passados os cenários de monólitos. Pobre porque a Natureza por aqui se descuidou e nela deixou, inadvertidamente, a marca do seu bocejo. Pobre e macerada porque os homens que governam este combóio, e outros que lhes consentem as iras, a martirizaram e continuam, regaladamente, martirizando.

Assenta-lhe bem, no entanto – e isso constitui nitidamente, uma virtude inegável a lançar a crédito do mesmo combóio – a série de povoados portugueses que se instaram ao longo da via, e cujas gentes vêm à estação, trazer a sua presença ou os frutos do seu moirejar, assinalando um êxito de colonização étnica e uma vitória esplêndida do caminho de ferro.

E não se sabe bem que pensar, quando nos debruçamos e vemos estações animadas por burburinhos e figuras, que lembram quadros vivos de estações provincianos de Portugal – e, logo a seguir, notamos tanta terra desplumada, saqueada e destruída, a perder de vista de um e do outro lado da linda, e que nas andanças do combóio empobreceu até à miséria que nos aflige.

Impossível não querer bem a este caminho de ferro, que criou vida e movimento na sua zona de influência, que animou os esforços de numa tarefa portuguesa –e que semeou generosamente cidades, vilas e aldeias, que se chamam Nova Lisboa, Vouga, Bela Vista, Teixeira de Sousa, Silva Porto, Vila Luso, etc., etc..

Impossível, ao mesmo tempo, compreender um instrumento de progresso, criador de vida e civilização, que para realizar economias em combustível, rapou florestas inteiras, desertou terras e consumou, tão friamente, uma obra bárbara de destruição e ultraje á Natureza – na mesma colónia onde, na roda dos anos, se escrevem resmas de papel, verberando a inconsciência dos negros que queimam florestas!

Impossível conciliar – estes dois impossíveis.

Como estas coisas são julgadas por homens – e dos homens é mais própria a paixão desaustinada que o riso – uns escondem ou explicam todos os pecados mortais do caminho de ferro, exibindo o lindo diagrama de povoamento português por ele animado; outros negam todas as virtudes do combóio, mostrando a quem passa, a dor cruciante daquela terra ferida e desplumada.

Entre os dois extremos – o combóio passa e continua a queimar as próprias árvores que fugiram para longe.

Decerto poderiam conciliar-se mais humanamente (na medida em que o humano é também inteligente), as coisas, no sentido de tornar respeitáveis os serviços do combóio e não termos de o condenar por incendiário. Mas as empresas económicas, quando fazem contas e verificam que o carvão lhes sai mais caro do que a lenha, queimaria, se lho consentissem, as próprias portas do céu.

Se lho consentissem!

É outra maneira de considerar a inteligência do humano: outros pagarão as diferenças pelas quais, em certas circunstâncias, a lenha se torna muito mais cara que o carvão.

Vamos andando, perseguidos pela acusação gritante da paisagem – e que o combóio naturalmente não ouve.

O calor e o pó – um pó finíssimo e quente, em que bailam faúlhas, e que se infiltra por todas as fendas, e que se come e se respira, por mais que fechemos a boca e defendamos o nariz – tornam a monotonia, por vezes, supliciante.

Olho através da janela – e tenho saudades do carro bóer.

Insensivelmente recordo as grandes marchas lentas, que nos fixam, para sempre, aos pisos trilhados e aos quadros que contemplamos; as fadigas virilizantes, tão diferentes da fadiga mole que se instala com a trepidação do combóio; o conhecimento penetrante das coisas e das gentes, que se ganha a ver e a sentir com vagar. E odeio este combóio, que, aliás, não descarrilará por excesso de velocidade, e que, através do sertão saqueado, me furta o gozo profundo de viajar no sertão.

Passamos Vila Luso, cabeça do Moxico, onde vêm pretos à estação vender morangos vermelhos e frescos como os de Sintra – e surgem, estas naturalmente desplumadas, as anharas solenes, já aloiradas, neste princípio de Maio.

À sombra de uma acácia solitária distingo os vultos esbeltos de antílopes das anaharas.

A viagem decorrem entre lufadas de poeira e sem incidentes – monótona e quente – apenas materialmente animada pelas refeições e pelo sono.


( ... )


Entretanto, alcançámos terra do Dilolo – e, ao cabo do Dilolo, a vila de Teixeira de Sousa, pois assim se chama hoje, o velho burgo do Dilolo.

Estávamos a bater à porta do Congo Belga, que se abria para outro Dilolo improvisado – o Dilolo Belga.

Dois povoados vizinhos e fronteiriços, quase a dar-me as mãos, duas vilas africanas – e, contudo, duas fisionomias diferentes. Ali, criados a dois passos um do outro, quase com a mesma idade, embora com diferenças sensíveis quanto a nascimento – mas um é português, e logo se vê que o é; o outro é belga, e imediatamente se verifica que já não é português. Cada qual tem a marca do respectivo colonizador.

Como o combóio belga, para o qual nos devíamos transbordar, só partia à noite, passámos o resto do dia em Angola, a rever as coisas do nosso Dilolo.

À noite, durante o jantar, findo o qual nos dirigiríamos à estação do Dilolo Belga, fomos surpreendidos por um concertante estranho de sinos, buzinas de automóveis, tiros de espingarda – não sei se algum foguete.

Acabara a guerra. (2)

A notícia, na sua volta fulgurante pelo mundo, acabava de chegar ao Dilolo!

E dir-se-ia que era, neste bocado de terra distante, a própria terra que soava.

Não se contavam, possivelmente, nos dois burgos reunidos, entre portugueses, belgas e os passageiros do combóio, cem europeus.

Talvez nunca, desde o princípio do mundo, se tivessem juntado, dentro daquele círculo, de isolamento quase insular, sons tão diferentes e tão igualmente comovidos.

Aonde eu fui viver essa hora tão solene, para muitos milhões de homens de todo o globo! Entre duas colónias; sob o céu dos trópicos!


( ... )


(1) Vid. “Outras Terras, Outras Gentes”, Vol. II.
(2) Parece-me bem anotar que se trata da guerra de 1939-1945 e não de outra que talvez já tenha eclodido quando estas páginas vierem a lume.


Agradeço à Ana Paula Figueiredo Fernandes (Chincha Farrica) ter-me facultado o fascículo acima referido, o qual faz parte da colecção pertencente ao seu Pai, Dr. Raúl Figueiredo Fernandes.

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