A Cidade Mãe
e a sua Província


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Lobito: terra dos flamingos e sala de visitas de Angola

por Autor desconhecido (*)


Em meados do século XIX Benguela parecia ter chegado a um beco sem saída, estagnada com uma crise nas matérias-primas de exportação e com o fim do comércio de escravos. Para agravar a situação, o seu clima severo tornou-a indesejável aos forasteiros, chegando a ser apelidada de “cemitério dos europeus”. No ano de 1842, D. Maria I assinou as portarias régias que ordenaram a deslocação da capital de Benguela para uma zona mais aliciante, precisamente onde hoje se situa o Lobito, zona mais favorável para a criação de pólos urbanos, limitada por morros, baixa e quebra-mar (a restinga).

Em termos de implantação urbanística, o Lobito representa um caso “sui generis” em Angola. O núcleo mais representativo e mais antigo da cidade é a conhecida restinga. Trata-se de um cabedelo de areia virado para Norte e com uma extensão de dois quilómetros e meio. Entre a restinga e o continente encontra-se uma excelente baía totalmente abrigada, onde se construiu o Porto do Lobito, considerado oceânico de primeira classe e um dos mais importantes da costa atlântica africana.

A restinga é a parte velha da cidade. O seu perfil arquitectónico denota a indisfarçável presença colonial portuguesa. O património imobiliário incluiu igualmente exemplares únicos da chamada “arte-nova”. Noutros edifícios antigos facilmente se vislumbra a influência dos mestres ingleses que, no início do século XX, estiveram envolvidos na construção do porto e dos Caminhos-de-Ferro de Benguela (CFB).

Desde cedo a expansão do pólo urbano da restinga ficou condicionado pela limitação de espaço. A cidade tinha crescido até onde o obstáculo natural lhe permitiu. Depois foi a conquista da zona oposta à da restinga. Nasceu o bairro do Compão a partir de um acampamento de pessoal que labutava nas obras de construção do porto e mais tarde dos CFB. O aglomerado de barracas era designado pelos engenheiros e outros técnicos ingleses por “Compound”. Dali à palavra ser aportuguesada pelo pessoal angolano para “Compão” foi um curto passo. E assim permanece até hoje.

Todavia, desde cedo veio à tona um problema que tornava problemática a expansão urbana do pólo iniciado na restinga. O Lobito é um espaço onde predominam águas interiores. Por esse facto era considerado “o chumbo” dos urbanistas e arquitectos devido à sua complexa morfologia. Os menos avisados deixaram ali os seus créditos e muitos não conseguiram mais recuperar a reputação. Lagoas e mangais (devido à floresta de mangues que existia) condicionavam a implantação de edifícios para albergar novos habitantes atraídos às centenas, devido às múltiplas possibilidades de ocupação e de negócios que a construção do porto e dos caminhos-de-ferro proporcionava.

A solução escolhida pelos engenheiros foi a de proceder-se a sucessivos aterros e drenagens das zonas alagadas, conquistando espaço em terra firme a fim de ali se implantarem novos fogos. Ampliou-se o Compão, nasceram a Caponte, o Académico e outros bairros mais ou menos recentes, até chegar-se a uma nova situação de congestionamento urbano. Vozes sensatas defendiam a manutenção dos mangais que eram povoados por colónias de flamingos rosados e de garças. As lagoas eram o “habitat” dessas aves devido à existência de espécies marinhas que lhes serviam de alimento.

Foi então que se olhou para o morro da Bela Vista. Num assomo imediato chegou-se à conclusão de que a solução estava ali. Iniciou-se então a ocupação dos terrenos sobranceiros ao morro da Bela Vista. Estes ofereciam ilimitadas possibilidades de crescimento. Rapidamente o Lobito criou condições para a fixação de múltiplas indústrias nos ramos da construção e reparação naval, metalo-mecânica, alimentos, bebidas, entre outras. Por todo lado cresceram as casas comerciais.

O Lobito enfrenta o estigma de ser considerada cidade “sem história” quando comparada com a vizinha de Benguela, fundada nos alvores da colonização portuguesa. A criação do Lobito é atribuída a uma portaria de 2 de Setembro de 1913, mas muitos investigadores já refutaram a tese. O arquitecto e urbanista Castro Rodrigues afirma num estudo sobre o assunto que, muito antes dessa data, já os povos locais conheciam esta baixa alagada, chamando-a de “olupito”, designação da língua ovimbunda que significa passagem, caminho, passadeira.

“Olupito” era itinerário obrigatório das caravanas oriundas do interior para o litoral de Benguela, a fim de praticarem o comércio de escravos, cera e borracha com os portugueses. De “Olupito”, nasceu o nome da cidade que tem toda a sua existência ligada ao mar. Foi o mar, a porta para o mar, que definiu o pólo urbano antes das portarias e dos decretos.


(*)
Este texto foi-me enviado pelo lobitanga Carlos Duarte, que também desconhece o autor.

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