A Cidade Mãe
e a sua Província


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Benguelenses de Ontem e de Hoje


Aires de Almeida Santos
(Bieno, viveu e faleceu em Benguela.)

Meu Amor da Rua Onze

Tantas juras nós trocámos,
Tantas promessas fizemos,
Tantos beijos nos roubámos
Tantos abraços nós demos.
Era tão grande e tão belo
Nosso romance de amor
Que ainda sinto o calor
Das juras que nós trocámos.

Era tão bela, tão doce
Nossa maneira de amar
Que ainda pairam no ar
As promessas que fizemos.

Nossa maneira de amar
Era tão doida tão louca
Qu'inda me queimam a boca
Os beijos que nós roubámos.

Tanta loucura e doidice
Tinha o nosso amor desfeito
Que ainda sinto no peito
Os abraços que nós demos.
Quando te vejo passar
Com o teu andar
Senhoril,
Sinto nascer
E crescer
Uma saudade infinita
Do teu corpo gentil
de escultura
Cor de bronze,
Meu amor da Rua Onze.



Alda Lara

Alda Lara nasceu em Benguela a 9 de Junho de 1930 e faleceu em Cambambe a 30 de Janeiro de 1962.

Licenciou-se em Medicina na Universidade de Coimbra. A sua tese de licenciatura, que versou sobre Psiquiatria Infantil, chamou a atenção e valeu-lhe um convite para se especializar em Paris. O seu amor por Angola levou-a a recusá-lo.

Declamadora de notáveis recursos, deu vários recitais de poesia em Lisboa e Coimbra, divulgando a poesia dos poetas ditos “ultramarinos” e a poesia negra, que era praticamente desconhecida. A par dessa actividade, realizou algumas conferências, uma das quais sobre problemas de assistência médica missionária em África, que teve grande repercussão e se encontra publicada.

Extraído de “Poemas” – Obra Completa de Alda Lara - Ed. Imbondeiro - por Orlando de Albuquerque.

Miserere

Perdoai-me, Senhor!
Perdoai-me, que eu não sabia...


No meu palácio
batido por todos os mares de coral,
encastoada em espumas,
e rendas,
e ouropeis,
coberta de cetins e de aneis
no meu palácio de ilusão
onde cantam sereias pela noite dentro,
Senhor!
eu não sabia nada...


Foi preciso que o céu se cobrisse
de núvens negras,
e a tempestadade sacudisse
a solidão dos meus salões,
para que eu, transida de medo,
descesse aos subterrâneos do meu palácio,
em busca de protecção
e calor...


E nos substerrâneos...
só encontrei dor maior que a minha...
medo maior que o meu...
e loucura,
e suor,
e fome,
e ódio frio,
e revolta surda,
e o cheiro putrefacto dos corpos
que trouxe a maresia...


Ah! perdoai-me Senhor!
Pedoai-me...
que eu não sabia.


1949 - Março


Rumo
(ao J.B. Dias em 1949,à sua memória em 1951)


É tempo companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
da Terra!...

Nela,
o mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro,
e eu sou branca,
a mesma Terra nos gerou!

Vamos companheiro!
É tempo...
Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e em prazer dos teus prazeres
irmão:
que as minhas mãos brancas
se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras...
E o meu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor.

Vamos!
que outro aceno nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama...

E é tempo companheiro!
Caminhemos...










Regresso

(...)

Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...

Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acácias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
Voltei!...



1948


















Amílcar Barca Martins da Cruz

Barca da Cruz nasceu no Dombe Grande, em 20 de Dezembro de 1880. Licenciou-se em Direito, em 1904, na Universidade de Coimbra. Faleceu em Benguela aos 77 anos de idade.

Nascido e criado no meio restrito em que se incentivou uma mocidade ávida de saber, pronta a assimilar e dinamizar para produzir no campo dos valores do pensamento e da arte, Amílcar Barca da Cruz emparceira com Pedro Machado, Assis Júnior, Castro Francina, Augusto Bastos e outros tantos literatos de mérito na ficção e filologia, no teatro ou na linguística, que, não pelo volume de suas produções senão pela intencionalidade da sua arte, constituíram o primeiro escol intelectual dentre os filhos da terra angolana.

Pensador e artista, os que lhe conheceram o carácter de íntegro jurista e homem excelente, bem repararam que, na sua profunda modéstia e material desprendimento, se explica o alheamento e o silêncio a que votou a maioria dos seus trabalhos jurídicos e literários. Não é fácil, pois, reconstituir sem lacunas o perfil exacto deste advogado-escritor.

Regressou a Angola em 1906 e estabeleceu-se em Luanda, onde cedo ganhou a popularidade e estima da sociedade que servia. Iniciou uma vasta e espontânea colaboração nas colunas da imprensa chamada “metropolitana”. Foi um dos primeiros colaboradores do jornal “O Angolense”, de Luanda, onde publicou os seus primeiros ensaios de poesia, de educação e literatura.

Advogado consciencioso, defendeu os humildes quando os via alvo fácil das prepotências e das injustiças dos grandes. Pobre de bens materiais, rico apenas dos valores que o tempo não corrói, jamais se deixou conduzir pela venalidade do dinheiro. Foi solicitado para presidir a clubes, colaborar no Rádio Clube com programas literários, incluir o seu artigo semanal no “Jornal de Benguela”. A sua modéstia quase obsessiva impediu que desse publicidade os seus trabalhos jurídicos, literários ou filológicos. Tinha profundo conhecimento dos idiomas de Angola.

A sua vasta obra ficou dispersa, quase anónima, pela imprensa de Angola e de Portugal. Escondia-se frequentemente sob o pseudónimo de Marcial Prazins.

in "O Espoliado" (AEANG), Junho 2003 - Nº 23.



Ernesto Lara Filho

No site da UEA – União dos Escritores Angolanos, em http://www.uea-angola.org/bioquem.cfm?ID=86, podemos ler (texto adaptado):

«Ernesto Pires Barreto de Lara Filho (1932-1977), nasceu em Benguela e faleceu no Huambo, vítima de um trágico acidente de automóvel. Fez os seus estudos primário e secundário em Benguela e concluiu o curso de Regentes Agrícolas em 1952, em Coimbra, Portugal.

Andou pela Europa, viveu um tempo em Moçambique, regressou a Angola e fixou-se em Luanda, onde exerceu várias profissões, entre elas a de jornalista. Foi locutor na Rádio Brazaville, operário especializado de 1ª classe nos Serviços de Agricultura e Florestas de Angola.

“Escritor maldito”, mesmo na pós-independente sociedade do Huambo, pela sua postura boémia, Ernesto Lara Filho nunca abandonou o espírito inconformista e libertário em relação a normas e convenções – embora o tivesse tentado: esforçou-se por acabar o curso e até tirar um curso superior, para satisfazer as expectativas da família, como sua irmã Alda Lara. Na poesia de Lara Filho há o elogio da individualidade, a apologia humorística do inconformismo em relação ao intelectualismo, a apologia da diferença e o elogio da marginalidade, o escárnio face ao esgotamento de formas, ideias dominantes e normas sociais, a reacção contra o convencionalismo estético – uma atitude que é reflexo do seu posicionamento perante a vida e o mundo.» in: Inocência Mata. Literatura Angolana: “Silêncios a Falas de Uma Voz Inquieta”. Lisboa, Mar Além, 2001, p. 234.

Participou em diversas actividades literárias e culturais, dirigiu juntamente com Rebelo de Andrade a “Colecção Bailundo”. Foi cronista do “Jornal de Angola”, de “Artes e Letras” da “Província de Angola”, redactor do ABC. Colaborou em vários jornais e revistas, como “Mensagem” (CEI), “Cultura” (II), “Diário de Luanda”, “O Comércio” e “Notícias”.

Figura em diversas antologias, nomeadamente, “«Antologia de Poesia Angolana” 1957), “Poetas Angolanos” (1959), “Poetas Angolanos” (1962), “O Corpo da Pátria – Antologia Poética da Guerra do Ultramar, 1961-1971” (1971), “Presença de Idealeda” (1973), “Angolana” (1974), “Poesia Angolana de Revolta” (1975), “Antologia da Poesia Pré-Angolana” (1976), “No Reino de Caliban. Antologia Panorâmica da Poesia Africana de Expressão Portuguesa” (1976), “Poesia de Angola” (1976). Foi co-fundador da UEA.

As suas obras publicadas são: “Picada de Marimbondo” (1961), “O Canto do Martrindinde e Outros Poemas Feitos no Puto” (1964), “Seripipi na Gaiola” (1970), “O Canto do Martrindinde” (1974, 1989), “Crónicas da Roda Gigante” (1990).»

Direi que a sua vida se resume à frase “nasceu rebelde e rebelde partiu”.

Admito que não li toda a sua obra literária, porém, como sua conterrânea, elejo “Mukanda de Amor a Benguela” (www.angola-saiago.net/cidmae10.html) como a sua obra-prima. Nela, este seu filho, que nunca se deixou espartilhar pelas convenções impostas pela sociedade do seu tempo, não dá espaço à estroinice ou à irreverência; a par das críticas que faz aos hábitos benguelenses – e que todos nós, seus antigos habitantes, reconhecemos -, ele recorda a velha e centenária cidade, retratada com muito amor e ternura.

O canto do Martrindinde

O canto do Martrindinde
é um canto da cidade
vem pela noite dentro
cheio de ambiguidade

O canto do Matrindinde
é um cantar nacional
veio do mato à cidade
e tornou-se universal.


“O Canto do Martrindinde”. in “O Canto do Martrindinde”.
Luanda, União/Endiama, 1989, p.64.












Poema da Praia Morena

Benguela
tinha tico-tico e colo-colo
nesse tempo
mesmo na Praia Morena

E o Mar
escondia
jamantas terríveis

E tinha
Carangueijos,
santolas,
que agente caçava com fisga.
Foi o filho do Rodrigues
despachante
que ensinou

Nada se perdeu;
o búzio ali está na mezinha de cabeceira
zunindo histórias,
fazendo lembrar
o menino que eu fui.


“Poema da Praia Morena”. in “O Canto do Matrindinde”.
Lobito, Editorial Capricórnio, 1974, p. 57.




Augusto Tadeu Bastos Frederico Ningi Pepetela Raúl David Timóteo Ulika


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