A Cidade Mãe
e a sua Província


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"Mukanda de Amor para Benguela"

por Ernesto Lara Filho


ABERTURA --- Esta crónica é integralmente dedicada a Benguela, no ano do seu 350º aniversário. Foi feita a pedido do redactor principal, João Fernandes. Tenta apenas ser uma modesta homenagem do cronista à terra onde nasceu e onde desejaria ser sepultado um dia. Foi escrita com os farrapos da saudade a tremular nos bicos mais altos do coração, com as reminiscências da infância a reluzirem nos quintalões da nossa memória. Dedico-a aos novos de Benguela com o carinho de um patrício que, embora longe, não esquece a cidade que lhe serviu de berço. Onde bebeu as vivências que agora atira para ao papel.

NOTA --- Na guitarra, o Santos “Chicuamanga”, empregado camarário de Benguela, tocando música de fundo. A crónica deveria ser ilustrada por uma aguarela do Mário de Araújo e uns bonecos do Roberto Silva, mostrando o Mercado Municipal, alguns aspectos do Bairro Benfica e da Rua Cinco de Outubro, com fotos de casuarinas da Praia Morena, feitas pelo fotógrafo Luís de Camões, o poeta desconhecido de Benguela. A locução ficará a cargo de Francisco José dos Santos, o Zeca Santos, do Rádio Clube. Uma acácia rubra tem de aparecer em primeiro plano. O Sombreiro. E um carro puxado a mulas do tempo do velho Fragoso. Declamando poemas, voz longínqua e arrastada do Aires de Almeida Santos, dizendo “Meu Amor da Rua Onze”.



1 - Benguela foi sempre berço de gentes bem portuguesas, foi sempre franca a colaboração com os governos, mas os seus cidadãos, foram também e sempre, ciosos dos seus deveres e direitos, e, através de todos os seus passos, o afirmaram desassombradamente.

Homens como Manuel de Mesquita que fundou o jornal mais antigo de Angola – “O Jornal de Benguela”; Adolfo Pina, notável jornalista e fundador do diário “A Província de Angola”; António da Costa com o seu prodigioso Cassequel a dar açúcar até hoje; Bernardino Correia a fundar a Companhia Colonial de Navegação, quando a situação dos transportes marítimos portugueses era precária nas ligações com as províncias ultramarinas, para drenagem dos produtos de Angola para a Metrópole e para o Estrangeiro; Sousa Lara com o açúcar do Dombe; General Faria Leal que está sepultado em Benguela. Todos eles passaram pela cidade da minha infância e com a sua passagem pontilharam com obras vivas, ainda hoje, um período da vida benguelense que a projectou para sempre na história de Angola.

2 - Benguela foi a primeira cidade de Angola que teve luz eléctrica, água encanada e telefone. Telefones esses que foram mais tarde levantados para irem servir Luanda. Benguela tinha um grupo de homens que pertencia ao Grémio Luzitânia, que tanto fizeram por ela, que é como quem diz, por Angola. Benguela foi a cidade de onde partiu a ideia da criação de um imposto para a construção de um Palácio de Comércio, que mais tarde deu origem à criação, à construção de outros Palácios de Comércio, espalhados hoje por toda a Angola. Foi a primeira cidade a ter um Jardim-Escola. Benguela, não tendo um campo de aviação em condições, em arrancadas bairristas, de cunho puramente regional, conseguiu, da bolsa particular, fundos para a construção do que é hoje um verdadeiro Aeroporto, o nosso magnífico DOKOTA.

Benguela, a cidade de quem o Governador Marques Mano, falando na Câmara Municipal da cidade, afirmou um dia:

”Não se encostam cidades como Benguela a uma parede para se fuzilarem...”

3 – Benguela é uma cidade tão democrática que, antigamente, a Direcção da Associação Comercial ia cumprimentar a Direcção da Associação dos Empregados de Comércio, no dia do aniversário desta e igualmente os empregados retribuíam, quando a patronal festejava o seu. É até uma cidade onde as duas Associações ficam frente uma da outra, e bem perto, uma rua apenas as separa, como que querendo dizer que os revezes da vida por vezes levam os sócios da patronal para a dos empregados, como que a indicar que a vida faz por vezes os homens transitarem de uma para a outra, descendo a ladeira da estrada da existência.

Tão democrática, repito, que o Director do Caminho de Ferro de Benguela vinha de comboio do Lobito, para conferenciar com o Governador do Distrito, trazendo a sua bicicleta no comboio e seguindo para o Palácio de Governo, pedalando debaixo das frondosas sombras das árvores da cidade. Tão democrática, que o Governador, depois de encerrado o expediente, ia para a cervejaria do Madeira jogar os dados com os frequentadores habituais e ali ouvia de perto todas as reclamações dos habitantes. Onde, ao meio-dia, uma peça dava o tiro anunciador da hora, até que um dia, de tão velhinha, rebentou e nunca mais anunciou a hora de largar o trabalho. Onde a Câmara tinha um belo landeau puxado por rica parelha de muares para irem buscar os vereadores para as sessões. Onde havia uma parteira velhinha, Palmira Capela, que pôs tanto menino no Mundo, e acudia pressurosamente noite e dia às parturientes, no seu carrito puxado a mulas.

4 – Foi Benguela a primeira cidade de Angola a ter um dispensário de puericultura para os nativos. Foi Benguela que, numa arrancada brilhante, construiu um dos maiores hotéis de Angola – o MOMBAKA. Foi Benguela que teve a primeira estação emissora de rádio – o Rádio Clube de Benguela – de toda a Angola. Onde o asfalto se aplicou com antecipação. Onde o Chiquito e o Boy, africanos das famílias mais tradicionais de Angola, davam as suas rebitas de elevada organização. Onde havia homens de fôro de valor e talento superiores da categoria de um Dr. Amílcar Barca Martins da Cruz, Dr. António Durães e Dr. Aguiam.

5 – Houve uma altura em que, quando o Caminho de Ferro de Benguela estava numa situação financeira muito crítica, no tempo em que era Director Mariano Machado, foi Benguela quem resolveu sugerir e permitir um aumento de tarifas, mas destinando-se esse aumento à compra de material circulante, para o que o valor do aumento das referidas tarifas era separado da receita geral. Onde no dia do aniversário da Implantação da República, 5 de Outubro, se organizavam cortejos cívicos, em que tomavam parte todos os habitantes e autoridades, e iam junto do Governador apresentar cumprimentos para depois dispersar.

Benguela, que no tempo do célebre movimento da conversão da moeda se manteve íntegra, sendo preciso vir de Luanda como emissário o velho Joaquim Faria – fundador de “O Comércio” – para se abrirem os estabelecimentos comerciais que se encontravam encerrados há mais de dois meses.

6 – Benguela de Roberto Silva e do Mário Araújo, pintores. Benguela do Aires de Almeida Santos e Alda Lara, poetas. Do Ralph Delgado, historiador. Do Tadeu Bastos, escritor. Do Gastão Vinagre, do Albuquerque Cardoso – que lá publicou o primeiro jornal desportivo de Angola -, do Américo Aleixo, do Centeno, do Carmona – do monóculo – do Dr. Fausto Frazão, o autor da famosa letra da não menos famosa canção “Coimbra, menina e moça”. Benguela das Pescarias e das Traineiras, da Lupral e das fábricas de conservas, da Metalúrgica do Guerra, que tantas e tantas fábricas de desfibra de sisal construiu. Das fábricas de refrigerantes, da velha Alfândega por onde passaram milhares e milhares de toneladas de borracha, nos primeiros tempos da colonização. Benguela dos dias de São Vapor, em que as carreiras que faziam escala na cidade eram anunciadas, ao chegarem os navios, por um tiro de peça.

Benguela da Igreja de Nª Sª do Pópulo, o mais antigo monumento representativo do barroco colonial da África Ocidental, hoje considerada Monumento Nacional com mais de 200 anos e que tem um altar todo em prata.

Benguela do Vale do Cavaco, de superior importância, a maior estufa natural de Angola, como alguém já lhe chamou.

Benguela do PORTUGAL, clube da bola de que foi sócio nº 1 o Joaquim Branco, que adoptou há mais de 40 anos, as cores na camisola às riscas pretas e brancas, símbolo de união entre duas raças.

Benguela do Padre Scherring, do Professor Santiago da Escola da Liga, do Correia da Silva, poeta, da morena Esperança, do Ramos, chófer do Palácio, do maxibombo das colónias balneares, das mangueiras frondosas, das pitangueiras, fruta-pinha e sápe-sápe, das serenatas em noites de luar, do pôr-do-sol no Sombreiro, dos passeios ao 27 – Damba Maria, que nome tão lindo escondendo uma lenda não menos linda -, do Bairro do Benfica e da Rua 5 de Outubro, do Cassôco e do Casséque, da Massangarala e do Quioche, das cajajeiras e dos quintalões – eu daqui, de longe, te saúdo.

Benguela, a terra em que nasci.

(A música vai-se apagando em fundo e é substituída pelo dedilhar de um quissange. Vai-se ao Bar Guimarães, pedem-se umas ostras e mariscos, bebe-se cerveja e comentam-se as comemorações com que Benguela afirma a toda a Angola a sua vitalidade. Diz-se mal da Câmara, dos homens mais representativos da cidade, porém... colabora-se.)


inNOTÍCIA”, Ano VIII, Nº 390, 27 de Maio de 1967 - Número de recordação dedicado a Benguela.
(Contribuição de Júlio Centeno Largo.)

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