LAVRA EXEMPLAR:Isto Agora Só à Fala”


de José Eduardo Agualusa

in Jornal “A Capital", de 28 de Janeiro a 4 de Fevereiro de 2006.


Recebi em mina casa, recentemente, um exemplar de “Lavra”, denso e belíssimo volume, da responsabilidade dos Livros Cotovia, que reúne toda a poesia de Ruy Duarte de Carvalho, publicada entre 1970 e o ano 2000. Nestes dias em que tanta gente vocifera, num justíssimo furor, contra o comportamento dos serviços consulares portugueses em Luanda, e por extensão contra os portugueses em geral, vale a pena voltar a ler os versos de um homem que é, talvez, o melhor de tudo quanto Portugal deixou (esquecido) em Angola.

Nascido em Santarém, em 1941, e criado no Namibe, Ruy Duarte de Carvalho passou a vida inteira a estudar, a filmar e a celebrar, através da poesia, as populações do deserto. Dizer que se trata do maior poeta angolano é não dizer quase nada. Trata-se, sim, sem qualquer dúvida, de um dos maiores poetas vivos que escrevem em português, ao lado, senão mesmo à frente, de um Ferreira Gullar, ou de um Nuno Júdice.

O extraordinário é que Ruy Duarte permaneça ainda quase ignorado entre nós, vítima da indiferença de quem o não compreende porque carece de formação para o compreender e do ácido silêncio invejoso daqueles que, compreendendo-o, o preferem todavia ignorar.

Fora de Angola, em Portugal, no Brasil, e pouco a pouco noutras geografias mais árduas, Ruy Duarte começa a ser conhecido e reconhecido. Num balanço de 2005, António Mega Ferreira, respeitadíssimo nome da cultura portuguesa, actualmente à frente do Centro Cultural de Belém, falava com assombro do mais recente romance – vamos chamar-lhe romance – de Ruy Duarte, “As Paisagens Propícias”, dizendo tratar-se do que melhor havia lido, em português, nos últimos tempos.

Para aqueles que estão familiarizados com a obra de Ruy Duarte, ler “Lavra” é também uma forma de avaliar a evolução do poeta. Curiosamente, muitos dos primeiros poemas com que abre o livro permanecem actuais, quer formalmente, quer, inclusive do ponto de vista das ideias. Leia-se, por exemplo, um poema dedicado a Benguela, escrito há mais de trinta e cinco anos: “dorme Benguela / ventre gasto de poetas frustres / exangue combustão de fé perdida / (…) / dorme Benguela / mal-amada sombra de um quintal vendido / tapume podre de um remorso azedo / mangal viscoso de intenções veladas / coceira ardente, chaga prometida / dorme, Benguela / fadiga permanente / meu perpétuo odor / de sacrifício vão”.

Ruy Duarte é património comum de Angola e de Portugal, um pouco como, por exemplo, a Fortaleza de São Miguel. Devia ser cuidado, e festejado, por ambas as partes. Receio, contudo, que só daqui a um bom par de anos, depois de Ruy Duarte se tornar um fenómeno de culto em França ou no Reino Unido, o que acabará por acontecer, os nossos intelectuais se lembrem dele. A grande ironia é que teriam mais eles a ganhar com isso – em descobri-lo e festejá-lo – do que o próprio Ruy Duarte.

[ Encontro com a Escrita ] Inserção em 20 de Março de 2006. [ Página Principal ]