IMIGRANTES:Isto Agora Só à Fala”


de José Eduardo Agualusa

in Jornal “A Capital", de 9 a 16 de Outubro de 2004.


Os portugueses têm tendência a esquecer o facto do seu país ser, em larga medida, uma construção africana. A presença árabe - árabes vindo sobretudo da região, no norte de África onde hoje se situa o Reino de Marrocos - na Península Ibérica muitos dos seus hábitos, a sua arquitectura, língua e pensamento. Se fosse possível retirar à língua portuguesa todas as palavras de origem árabe, bem como as restantes palavras de origem africana, em particular do quimbundo, que chegaram depois, com a expansão marítima, o resultado seria um idioma mutilado, uma geringonça, estropiada, impossível de utilizar com sucesso.


Suponhamos uma frase como esta: “O alfaiate veste um fato azul. Põe açúcar no café. Fuma cachimbo. Depois cochila.”
Digo-lhe: “Oxalá as almôndegas tenham jindungo”.

Se lhe retirarmos todas as palavras de origem africana, ficaria assim: “O veste um. Põe no. Fuma. Digo-lhe - as tenham.” Alfaiate, fato, azul, açucar, café, oxalá e almôndegas vêm do árabe. Cachimbo, cochilar e jindungo vêm do quimbundo – tal como, por exemplo, cambada, minhoca, caçula, batucar, bunda, banzé, cafuzo, cambuta, carimbo, catinga, lengalenga, etc..

Penso nisto sempre que assisto a um debate sobre a questão da emigração africana para a Europa. Tem-se falado muito de refugiados (podem dar-lhes nomes menos antipáticos) em países do norte de África, numa tentativa de impedir a entrada dessas pessoas em território europeu. Julgo que tanto Portugal quanto a Espanha deveriam ter uma posição especial em relação a este assunto. Em primeiro lugar porque, como disse atrás, são também países de matriz africana - e ao rejeitarem África estão a rejeitar uma parte de si mesmos. Em segundo lugar porque todos os estados demográficos mostram que a imigração é a forma mais fácil e inteligente de países como Portugal, com uma taxa de natalidade muito baixa, conseguirem repor a sua população juvenil e sobreviver.

Chocam-me ainda mais as notícias segundo as quais também em Angola se expulsam imigrantes africanos. Muitos desses imigrantes, especialmente os congoleses, possuem laços de parentesco com as populações angolanas da fronteira, além de fortíssimos vínculos culturais. Deveriam ser recebidos como família - não à pedrada.

Por outro lado, Angola precisa de gente. Temos apenas doze ou treze milhões de habitantes. Deveríamos ter pelo menos duas vezes mais, de forma assegurar um desenvolvimento sustentável, com um próspero mercado interno, e uma ocupação efectiva do território. O que o governo angolano deveria fazer era apoiar e fomentar a imigração - uma imigração de qualidade, já agora, e, é claro, convenientemente regulada - e não combatê-la. O medo do outro, sejam esses outros malianos, congoleses ou brasileiros, denuncia os espíritos fracos. Só quem não se sente bem enquanto angolano pode ter receio de que a entrada de imigrantes venha a ameaçar os valores nacionais. Países fortes, como os Estados Unidos da América ou a Austrália, fizeram-se assim, com imigrantes. Temos muito a aprender com eles.

[ Encontro com a Escrita ] Inserção em 7 de Novembro de 2004. [ Página Principal ]